
A resistência ao plano bilionário apresentado pela FIFA ganhou um aliado importante. A Confederação Asiática de Futebol, a AFC, elevou o tom contra a proposta de Gianni Infantino para criar uma empresa avaliada em US$ 20 bilhões e vender uma participação minoritária a investidores privados.
Em carta enviada às 47 federações filiadas à AFC, o presidente Salman bin Ibrahim Al-Khalifa afirmou que a entidade asiática não foi consultada antes da divulgação do projeto. O dirigente também reclamou de não ter recebido análises detalhadas sobre os possíveis efeitos jurídicos, financeiros e administrativos da operação.
A AFC já havia divulgado uma manifestação mais moderada sobre o assunto. A nova carta, porém, amplia a pressão sobre a FIFA e aproxima a confederação asiática das críticas apresentadas anteriormente pela UEFA e pela Concacaf.
O posicionamento possui peso político porque a Ásia reúne 47 das 211 associações com direito a voto na FIFA. Além disso, a AFC vinha mantendo uma relação próxima com Infantino e havia apoiado sua continuidade na presidência da entidade.
Presidente da AFC critica ações unilaterais
Salman bin Ibrahim classificou como inaceitável a forma como a FIFA apresentou a proposta.
Segundo o dirigente, uma decisão capaz de alterar profundamente a estrutura comercial do futebol mundial não poderia ser desenvolvida sem diálogo com as confederações, federações nacionais e demais participantes do esporte.
A AFC demonstrou preocupação principalmente com a ausência de informações sobre governança, riscos jurídicos, modelo financeiro e consequências de longo prazo.
Na carta, Salman afirmou que as ações unilaterais da FIFA podem enfraquecer as bases do futebol continental, construídas sobre princípios de solidariedade, cooperação e transparência.
O presidente da confederação asiática também avisou que a iniciativa não terá sucesso sem o apoio de todos os seis blocos continentais.
— Uma iniciativa como essa não terá sucesso sem o apoio de todas as confederações — escreveu o dirigente.
A declaração representa uma advertência direta a Infantino. Embora a aprovação formal dependa da maioria das federações nacionais e do Conselho da FIFA, a falta de apoio político das confederações pode dificultar a implementação do projeto.
AFC pede adiamento do prazo
Outro ponto criticado foi o calendário estabelecido pela FIFA.
Infantino determinou que as associações filiadas manifestem apoio à proposta até 19 de setembro. A AFC considera o prazo insuficiente para avaliar uma operação envolvendo bilhões de dólares e os principais ativos comerciais do futebol mundial.
Salman afirmou que decisões dessa dimensão não deveriam ser tomadas de maneira apressada. A confederação deseja tempo para realizar análises jurídicas e financeiras, consultar especialistas e discutir o projeto com suas federações.
A AFC pretende procurar diretamente a FIFA para solicitar mais informações e defender uma alteração no cronograma.
Até a publicação da carta, a entidade asiática não havia recebido documentos detalhados capazes de esclarecer a estrutura de administração da nova empresa, os direitos dos investidores e os possíveis impactos sobre as competições continentais.
O que é a FIFA Forward Enterprise?
O plano prevê a criação da FIFA Forward Enterprise, ou FFE, uma subsidiária responsável pelas operações comerciais e pela organização dos eventos da FIFA.
A empresa reuniria atividades como venda de direitos de transmissão, patrocínios, ingressos, licenciamento e operação dos torneios masculinos, femininos e de base.
A FIFA avalia inicialmente a companhia em US$ 20 bilhões e pretende vender participações minoritárias e sem poder de controle a investidores externos. A operação poderia arrecadar até US$ 4,2 bilhões.
Segundo a entidade, ela continuaria controlando integralmente as decisões esportivas. Regras, calendário internacional, formatos das competições e demais assuntos regulatórios permaneceriam sob autoridade exclusiva da FIFA.
O dinheiro captado seria utilizado para ampliar os programas de desenvolvimento destinados às 211 federações nacionais. A FIFA afirma que os benefícios líquidos gerados pela empresa seriam reinvestidos no futebol.
Federações podem receber US$ 40 milhões
A proposta inclui um aumento considerável nos repasses financeiros.
Cada associação poderia solicitar até US$ 20 milhões em financiamento imediato para projetos especiais. Além disso, a verba regular do programa FIFA Forward subiria dos atuais US$ 8 milhões para US$ 20 milhões no ciclo entre 2027 e 2030.
Na prática, as federações teriam acesso a até US$ 40 milhões durante o primeiro período do novo programa, desde que a estrutura empresarial seja aprovada.
Os repasses regulares aumentariam para US$ 22 milhões entre 2031 e 2034 e para US$ 24 milhões no ciclo seguinte, entre 2035 e 2038.
Caso o projeto seja rejeitado, a previsão anterior seria mantida. De acordo com a carta enviada por Infantino, as federações receberiam aproximadamente US$ 10 milhões no próximo ciclo, em vez dos US$ 20 milhões previstos no novo modelo.
A diferença provocou acusações de pressão financeira. Críticos consideram que associações dependentes dos repasses da FIFA podem se sentir obrigadas a apoiar o plano para não perder recursos importantes.
UEFA e Concacaf já criticaram projeto
A reação asiática amplia um movimento iniciado pela UEFA.
A entidade europeia rejeitou a proposta e acusou a FIFA de tentar comercializar ativos que pertencem ao futebol mundial. Federações europeias também reclamaram da falta de participação nas negociações e discutem possíveis formas de resposta.
A Concacaf adotou posição semelhante. A confederação responsável pela América do Norte, América Central e Caribe afirmou que conheceu o plano inicialmente por meio de reportagens e comunicados públicos.
Segundo a Concacaf, faltaram processo adequado, transparência e consulta aos órgãos responsáveis pela governança do futebol.
A Confederação Africana de Futebol deverá analisar a proposta em uma reunião de seu comitê executivo. A Oceania também pretende discutir o projeto, enquanto a Conmebol ainda não havia apresentado um posicionamento público até a divulgação da carta da AFC.
Sindicatos de jogadores entram na discussão
A oposição também passou a envolver representantes dos atletas.
A Fifpro alertou que a entrada de investidores privados pode alterar os interesses econômicos relacionados às competições. A preocupação é que a busca por retorno financeiro provoque novos torneios, aumento do número de partidas ou mudanças pensadas prioritariamente para ampliar receitas.
O sindicato dos jogadores da Austrália criticou a falta de participação de atletas e torcedores nas discussões. Para a organização, esses grupos ajudam a gerar o valor econômico das competições, mas foram deixados fora do processo decisório.
A entidade australiana também acusou a FIFA de pressionar as associações a aprovarem rapidamente a proposta.
Apoio asiático pode ser decisivo
A manifestação da AFC representa um problema especialmente importante para Infantino.
A Ásia vinha sendo considerada uma das principais bases políticas do presidente da FIFA. A confederação apoiou diferentes projetos da atual administração e possui grande influência devido ao número de federações filiadas.
O novo posicionamento não significa que as 47 associações asiáticas votarão obrigatoriamente contra a proposta. Cada federação possui autonomia dentro do sistema da FIFA.
Entretanto, uma orientação contrária da AFC pode dificultar a formação da maioria necessária para aprovar a FIFA Forward Enterprise. Também pode incentivar federações da África, América do Sul e Oceania a exigir mais tempo e informações antes de decidir.
A FIFA sustenta que a proposta ainda está em fase de consulta e que somente avançará após receber apoio da maioria de suas associações e as aprovações necessárias do Conselho.
A carta de Salman bin Ibrahim, porém, mostra que a oposição deixou de estar concentrada na Europa. Com UEFA, Concacaf e AFC questionando o processo, a pressão sobre Infantino passa a envolver três das seis confederações continentais.
A disputa agora gira em torno do prazo de setembro. A FIFA tenta convencer as federações de que o projeto ampliará os investimentos no futebol, enquanto seus críticos exigem transparência, consultas formais e garantias de que os interesses comerciais não controlarão o futuro das competições.





