
A oposição ao plano bilionário de Gianni Infantino chegou ao interior da própria FIFA. Carlos Cordeiro, assessor sênior do presidente da entidade, anunciou nesta sexta-feira, 31 de julho, sua renúncia imediata em protesto contra a proposta de abrir parte dos negócios da Copa do Mundo a investidores privados.
Cordeiro afirmou que não participou da elaboração do projeto e declarou oposição total à iniciativa. Em sua manifestação, classificou a operação como um “mau negócio para o futebol” e alertou para os possíveis efeitos de longo prazo sobre as federações nacionais e as principais competições da entidade.
A saída representa a maior demonstração pública de resistência dentro da administração da FIFA desde a apresentação da proposta. Cordeiro havia sido escolhido pelo próprio Infantino, em 2021, para aconselhar a entidade em assuntos relacionados a estratégia global, governança e crescimento do futebol.
Cordeiro questiona necessidade de levantar US$ 4,2 bilhões
O ex-assessor concentrou suas críticas na lógica financeira da operação. A FIFA pretende arrecadar até US$ 4,2 bilhões com a entrada de investidores em uma nova empresa avaliada inicialmente em US$ 20 bilhões.
Cordeiro questionou por que a organização venderia uma participação permanente em seus ativos comerciais mais valiosos enquanto possui bilhões de dólares em reservas, não registra dívidas e projeta receitas de aproximadamente US$ 15 bilhões no ciclo entre 2022 e 2026.
Na avaliação do dirigente, a FIFA já teria capacidade financeira para ampliar os repasses às suas 211 associações sem entregar parte das receitas futuras da Copa do Mundo e dos demais torneios a grupos privados.
Cordeiro afirmou que levantar US$ 4,2 bilhões nessas condições representa uma troca desfavorável entre uma entrada imediata de dinheiro e a perda permanente de parte dos lucros futuros.
O ex-assessor também pediu que outros profissionais da FIFA se manifestem. Para ele, uma decisão dessa dimensão precisa atender aos interesses do futebol, e não apenas aos grupos que poderão obter retorno financeiro com o investimento.
O que é a FIFA Forward Enterprise?
O plano de Infantino prevê a criação da FIFA Forward Enterprise, conhecida pela sigla FFE. A subsidiária concentraria as operações comerciais e a realização dos eventos organizados pela FIFA.
Entre os ativos transferidos para a nova companhia estariam receitas provenientes de direitos de transmissão, patrocínios, venda de ingressos e licenciamentos. A estrutura também participaria da operação dos torneios masculinos, femininos e de base da entidade.
A FIFA calcula que a empresa começaria avaliada em US$ 20 bilhões. Investidores externos poderiam adquirir participações minoritárias e sem controle, limitadas a até 20% da companhia. A entidade afirma que permaneceria responsável pelas regras, pelo calendário, pelos formatos dos torneios e por todas as decisões esportivas.
O dinheiro arrecadado seria destinado ao aumento dos programas de desenvolvimento. A proposta inclui um pagamento opcional de até US$ 20 milhões para projetos especiais de cada federação e a elevação dos repasses regulares para US$ 20 milhões no ciclo entre 2027 e 2030.
A FIFA também promete US$ 22 milhões por associação entre 2031 e 2034 e US$ 24 milhões no ciclo seguinte. Segundo a entidade, mais de US$ 10 bilhões poderiam ser investidos no desenvolvimento do futebol caso o projeto seja aprovado.
Experiência no mercado financeiro reforça crítica
Carlos Cordeiro possui uma trajetória ligada ao futebol e ao setor financeiro.
Antes de trabalhar com a FIFA, foi presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos entre 2018 e 2020. Também participou da candidatura conjunta de Estados Unidos, Canadá e México para receber a Copa do Mundo de 2026.
Na iniciativa privada, construiu uma carreira de mais de três décadas em bancos e investimentos internacionais. Foi vice-presidente do Goldman Sachs e trabalhou em operações envolvendo governos e grandes empresas na Europa, Ásia, Oriente Médio e África.
Ao anunciar a contratação em 2021, Infantino apresentou Cordeiro como a pessoa indicada para ajudar na modernização da governança e na criação de novas formas de crescimento para o futebol masculino, feminino e de base.
A experiência financeira foi utilizada pelo próprio Cordeiro para sustentar sua oposição. O dirigente afirmou compreender tanto o valor comercial da Copa do Mundo quanto as consequências de entregar permanentemente parte desse ativo a investidores externos.
Outro dirigente acusa Infantino de enganar funcionários
A renúncia foi acompanhada por uma segunda crítica pública dentro da FIFA.
Kevin Lamour, diretor de operações da entidade, afirmou que funcionários foram enganados durante a preparação do projeto. Segundo o dirigente, o plano foi conduzido sem abertura suficiente e seria uma iniciativa concentrada na figura de Infantino.
Lamour não apresentou sua renúncia, mas declarou que a proposta não deveria avançar. O dirigente também afirmou estar disposto a enfrentar possíveis consequências profissionais por sua manifestação.
Lamour ocupa o cargo de diretor de operações desde 2024 e trabalhou anteriormente com Infantino na UEFA. A manifestação de dois integrantes importantes da administração transforma a controvérsia em uma crise interna, além do conflito já existente entre a FIFA e as confederações continentais.
FIFA mantém processo de consulta
Apesar da renúncia e do aumento da oposição, a FIFA informou que continuará apresentando o projeto às 211 federações nacionais.
A entidade argumenta que reportagens incorretas prejudicaram o início das discussões e afirma que cada associação deve analisar os documentos antes de tomar sua decisão. O plano não será implementado sem o apoio da maioria das federações e as aprovações necessárias do Conselho da FIFA.
Em resposta às acusações, a organização declarou que não pretende “vender o futebol”. Segundo a FIFA, os investidores não controlariam a empresa nem teriam autoridade sobre decisões esportivas.
A administração de Infantino defende que a operação permitiria aumentar imediatamente os investimentos em infraestrutura, centros de treinamento, futebol feminino, categorias de base e competições nacionais.
As associações têm até 19 de setembro para manifestar seu posicionamento. A proposta dependerá de uma votação individual, mesmo que as confederações recomendem a rejeição.
UEFA, Concacaf e Ásia rejeitam proposta
A saída de Cordeiro acontece em um momento de forte resistência externa.
As 55 federações da UEFA aprovaram uma ameaça de boicote às competições da FIFA caso o projeto seja levado adiante. A decisão poderia afetar Copas do Mundo, torneios femininos, competições de base e o Mundial de Clubes.
A Concacaf também rejeitou a proposta, embora não tenha acompanhado imediatamente a ameaça de boicote. A entidade reclamou da falta de consulta, do prazo reduzido para análise e da ausência de participação dos órgãos de governança durante a elaboração.
A Confederação Asiática manifestou solidariedade às críticas de UEFA e Concacaf. A AFC questionou a viabilidade da operação e a forma como o processo foi conduzido pela administração de Infantino.
Juntas, UEFA, Concacaf e AFC reúnem 143 das 211 associações da FIFA. Isso não significa que todas votarão seguindo a orientação de suas confederações, mas demonstra a dimensão política da resistência enfrentada pelo presidente da entidade.
Renúncia aumenta pressão sobre Infantino
Cordeiro não era apenas um funcionário administrativo. Ele participava de discussões estratégicas e representava a FIFA em compromissos internacionais, incluindo reuniões relacionadas à organização da Copa do Mundo de 2026 nos Estados Unidos.
Sua saída indica que a resistência ao projeto atingiu o grupo de profissionais escolhidos para ajudar Infantino a construir o futuro comercial e institucional da organização. A manifestação de Kevin Lamour reforça a percepção de uma divisão dentro da entidade.
Infantino mantém força política entre diferentes federações e pretende buscar um novo mandato. O surgimento de críticas dentro da própria administração, no entanto, aumenta o custo político de insistir no projeto sem alterações ou uma consulta mais ampla.
A FIFA continuará o processo até setembro. Até lá, Infantino precisará convencer as associações de que os bilhões prometidos justificam a venda de uma participação permanente nos negócios dos principais torneios do futebol mundial.
Para Carlos Cordeiro, a resposta já está definida. O dirigente deixou o cargo por considerar que a operação oferece dinheiro no presente, mas compromete parte do futuro comercial da Copa do Mundo.