
O deputado democrata Jamie Raskin, principal representante de seu partido no Comitê Judiciário da Câmara dos Estados Unidos, abriu uma investigação sobre a relação entre o presidente da FIFA, Gianni Infantino, e o presidente norte-americano, Donald Trump.
Em uma carta enviada a Infantino, Raskin pediu que a FIFA entregue documentos sobre pagamentos, presentes, benefícios e contatos mantidos com Trump, integrantes de seu governo, familiares e empresas relacionadas ao presidente. O congressista também solicitou que Infantino participe de uma entrevista formal e registrada pelo comitê.
A apuração procura identificar se a aproximação entre a entidade e a Casa Branca produziu algum tratamento favorável à FIFA. Raskin menciona a abertura de um escritório na Trump Tower, a criação de uma premiação entregue ao presidente e decisões tomadas pelo governo norte-americano em processos relacionados à corrupção no futebol.
As acusações apresentadas pelo deputado ainda não representam uma conclusão de culpa. A investigação está em sua fase inicial e busca documentos que possam confirmar ou afastar a suspeita de uma troca de benefícios entre as partes.
Investigação não foi aberta por todo o comitê
Jamie Raskin é o integrante democrata de maior posição no Comitê Judiciário, mas seu partido não controla a Câmara dos Representantes.
Por isso, a carta funciona inicialmente como um pedido de cooperação. Raskin não possui sozinho poder para obrigar Infantino a comparecer ou entregar os documentos. Uma intimação formal dependeria do apoio dos republicanos que controlam o comitê, presidido por Jim Jordan.
Mesmo com essa limitação, o documento abre uma frente de pressão política sobre a FIFA e pode servir de base para uma audiência no Congresso caso a investigação receba apoio de outros parlamentares.
A entidade recebeu prazo até 9 de agosto de 2026, às 17h, para responder às solicitações e entrar em contato com a equipe do comitê para organizar o depoimento de Infantino.

O que o deputado pediu à FIFA
A carta apresenta cinco grupos principais de documentos e informações:
| Solicitação | O que a FIFA deverá apresentar |
|---|---|
| Benefícios oferecidos | Lista de pagamentos, presentes, prêmios, aparições públicas ou outros itens de valor entregues a Trump, seus familiares, integrantes do governo ou empresas relacionadas |
| Trump Tower e prêmio | Contratos, mensagens e documentos sobre o escritório da FIFA na Trump Tower e o Prêmio da Paz entregue a Trump |
| Contatos com o governo | Comunicações mantidas desde 2024 com autoridades norte-americanas sobre processos ou assuntos analisados pelo Departamento de Justiça e outras agências |
| Venda de ingressos | Conversas com o governo sobre preços, reclamações de consumidores, revenda e sistema de precificação dinâmica |
| Registros de visitantes | Listas de pessoas que passaram pelos escritórios da FIFA em Miami e Nova York |
Raskin também determinou que a entidade preserve as comunicações realizadas por plataformas que permitem o desaparecimento de mensagens. A lista inclui Signal, Telegram, WhatsApp, X e Truth Social.
A solicitação inclui mensagens trocadas por funcionários da FIFA com pessoas ligadas ao governo Trump e ao comitê responsável pela posse presidencial.
Escritório na Trump Tower está entre os principais pontos
A FIFA inaugurou oficialmente um escritório de representação na Trump Tower, em Nova York, em julho de 2025. O anúncio ocorreu durante um evento com Infantino, Eric Trump e o ex-atacante brasileiro Ronaldo.
Na ocasião, Infantino afirmou que a entidade precisava manter presença permanente em Nova York por seu caráter global. O presidente da FIFA também agradeceu ao governo e à família Trump pelo apoio à Copa do Mundo de Clubes de 2025 e ao Mundial de seleções de 2026.
Raskin quer conhecer as condições financeiras do contrato, quanto a FIFA pagou pelo espaço, quem participou da negociação e como o escritório foi utilizado.
O parlamentar levanta a suspeita de que o acordo possa ter gerado benefícios financeiros para uma empresa ligada à família do presidente. A investigação ainda precisa demonstrar se o preço ou as condições foram diferentes daqueles normalmente praticados no edifício.
Prêmio da Paz entregue a Trump será investigado
Outro ponto central é o Prêmio da Paz da FIFA, criado em 2025 e concedido pela primeira vez a Donald Trump.
A homenagem foi entregue por Infantino durante o sorteio da Copa do Mundo, realizado em dezembro daquele ano, em Washington. A FIFA afirmou que Trump recebeu o prêmio por suas iniciativas diplomáticas e por seus esforços para promover acordos de paz.
Durante a cerimônia, Infantino declarou publicamente que Trump poderia contar com seu apoio e com o apoio da comunidade do futebol.
Raskin quer acesso aos documentos sobre a criação da premiação, os critérios utilizados, os responsáveis pela escolha do vencedor e as comunicações mantidas com o governo antes do anúncio.
O deputado trata o prêmio como um possível benefício político oferecido pela FIFA. A entidade, por sua vez, apresenta a homenagem como uma iniciativa anual destinada a reconhecer pessoas que atuam pela paz e pela união.
Caso Balogun aumentou suspeita de interferência
A relação entre Trump e Infantino passou a sofrer ainda mais questionamentos durante a Copa do Mundo de 2026.
O presidente norte-americano entrou em contato diretamente com Infantino depois que o atacante Folarin Balogun recebeu um cartão vermelho. Trump pediu que a FIFA revisasse a suspensão automática que impediria o jogador dos Estados Unidos de enfrentar a Bélgica nas oitavas de final.
A entidade não anulou o cartão, mas decidiu adiar o cumprimento da suspensão por um período probatório. A medida permitiu que Balogun fosse escalado na partida seguinte e provocou reclamações de dirigentes, seleções e representantes políticos europeus.
Infantino afirmou posteriormente que decisões semelhantes acontecem regularmente em processos disciplinares. A FIFA, entretanto, ainda não havia divulgado a íntegra da decisão utilizada para justificar o adiamento da punição.
O caso não aparece entre os cinco pedidos específicos de documentos da carta, mas ajuda a explicar por que a proximidade entre Trump e Infantino passou a ser analisada politicamente.

Deputado questiona encerramento de processos de corrupção
Raskin também relaciona a investigação a processos conduzidos pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos contra dirigentes da FIFA e executivos de empresas de marketing esportivo.
A operação iniciada em 2015 acusou dirigentes e empresários de participar de esquemas que envolveram mais de US$ 200 milhões em propinas e pagamentos ilegais relacionados a direitos de transmissão e contratos comerciais.
Na carta, o deputado afirma que o governo Trump abandonou processos que haviam produzido condenações e decisões favoráveis à acusação. Raskin pretende descobrir se a FIFA manteve contatos com autoridades norte-americanas sobre esses casos.
O parlamentar sugere que o encerramento das ações possa ter sido um benefício concedido à entidade. No entanto, a abertura da investigação não comprova que Trump ou Infantino tenham interferido nos processos.
Para tentar esclarecer o caso, a FIFA deverá entregar comunicações realizadas desde 2024 com representantes do Departamento de Justiça e de outras agências federais sobre assuntos que estavam sob análise do governo.
Preços dos ingressos também entram na apuração
A investigação não está limitada à relação pessoal entre Infantino e Trump. Raskin também pede documentos relacionados à venda dos ingressos para a Copa do Mundo.
O deputado acusa a FIFA de utilizar preços excessivos, aumentos dinâmicos e práticas comerciais prejudiciais aos consumidores. A política de ingressos já havia provocado investigações de autoridades estaduais nos Estados Unidos.
Segundo a carta, o projeto original da candidatura norte-americana indicava um preço máximo de US$ 1.550 para a final, mas alguns ingressos chegaram posteriormente a valores próximos de US$ 33 mil.
Raskin questiona por que o Departamento de Justiça e a Comissão Federal de Comércio não tomaram medidas semelhantes às adotadas pelas autoridades estaduais.
A investigação procura descobrir se a proximidade com o governo criou um ambiente no qual a FIFA acreditou que não enfrentaria fiscalização federal por suas práticas comerciais.
FIFA ainda não respondeu especificamente à carta
Até a publicação das primeiras reportagens, a FIFA não havia apresentado uma resposta oficial às solicitações de Jamie Raskin.
Infantino havia divulgado, pouco antes, uma longa manifestação em defesa da organização da Copa do Mundo. O dirigente acusou críticos de espalharem informações falsas e afirmou que o torneio conseguiu reunir milhões de torcedores em segurança.
O presidente da entidade também defendeu a decisão envolvendo Balogun e rebateu críticas sobre vistos, ingressos e interferência política. A manifestação, porém, não foi uma resposta direta à carta do congressista.
Outras entidades já questionavam a aproximação
A relação entre Infantino e Trump já era alvo de reclamações apresentadas por organizações de direitos humanos e federações nacionais.
A FairSquare pediu que o Comitê Olímpico Internacional investigasse uma possível violação das regras de neutralidade política. O COI rejeitou o pedido por considerar que o caso não estava dentro da competência de sua Comissão de Ética, sem analisar o mérito das acusações.
A Federação Norueguesa também apoiou uma reclamação formal contra Infantino dentro das estruturas do futebol. O questionamento envolve principalmente o prêmio concedido a Trump e a atuação do presidente norte-americano no caso Balogun.
A investigação de Raskin amplia o assunto porque solicita documentos sobre valores financeiros, decisões governamentais e contatos mantidos por integrantes da FIFA.
O que pode acontecer agora
A FIFA poderá entregar voluntariamente os documentos, negociar uma resposta parcial ou contestar a autoridade do deputado para exigir as informações.
Caso os republicanos do Comitê Judiciário apoiem a apuração, o Congresso poderá convocar uma audiência e utilizar poderes formais para exigir documentos ou depoimentos.
Sem esse apoio, Raskin continuará dependendo da cooperação de Infantino e da FIFA. O deputado também poderá divulgar novas cartas, solicitar documentos ao governo ou pressionar outras autoridades a investigar os assuntos levantados.
Por enquanto, não existe acusação criminal contra Infantino ou Trump decorrente dessa iniciativa. Também não há uma conclusão de que os benefícios mencionados tenham sido oferecidos em troca de decisões favoráveis à FIFA.
A investigação tenta responder justamente a essa questão: se a proximidade exibida publicamente foi apenas resultado da organização da Copa do Mundo nos Estados Unidos ou se produziu vantagens políticas, comerciais ou jurídicas para os envolvidos.





