A FIFA abandonou o plano de vender uma participação nos negócios comerciais da Copa do Mundo e de suas demais competições a investidores privados. O recuo, anunciado por Gianni Infantino, encerra a proposta avaliada em US$ 20 bilhões, mas não resolve a crise política aberta dentro do futebol mundial.
Neste sábado (1º), a UEFA recebeu positivamente a retirada do projeto, porém publicou uma das manifestações mais duras de sua história contra a direção da FIFA. A confederação europeia afirmou que a atual liderança da entidade mundial perdeu sua confiança e também a de outros integrantes do futebol.
A UEFA ainda exigiu uma investigação sobre a elaboração da proposta, afirmou que os responsáveis precisam prestar contas e prometeu trabalhar com outras confederações para impedir que projetos semelhantes sejam conduzidos novamente sem consultas amplas.
— Nenhuma opção deve ficar fora da mesa — declarou a entidade europeia, sem indicar imediatamente quais medidas poderá adotar contra Infantino.
Infantino confirma retirada do projeto
Infantino anunciou o abandono da proposta na noite de sexta-feira (31), depois de reconhecer que o projeto havia provocado divisões profundas.
Segundo o presidente da FIFA, a intenção original era unir e fortalecer o futebol. Como as discussões passaram a produzir um efeito contrário, a entidade decidiu não continuar com a operação.
A FIFA pretendia criar a FIFA Forward Enterprise, subsidiária responsável pelas atividades comerciais e pela realização de seus torneios. A empresa administraria áreas como direitos de transmissão, patrocínios, ingressos, licenciamentos e operações ligadas à Copa do Mundo, ao Mundial de Clubes e às competições femininas e de base.
A companhia começaria avaliada em US$ 20 bilhões. O plano previa a venda de aproximadamente 20% de sua participação para investidores privados, o que poderia levantar até US$ 4,2 bilhões.
A FIFA defendia que manteria o controle da empresa e que o dinheiro arrecadado seria aplicado no desenvolvimento do futebol. A forte oposição, porém, tornou improvável a aprovação necessária entre as 211 associações filiadas.
UEFA não considera assunto encerrado
A retirada evitou o boicote aprovado pelas federações europeias, mas não encerrou o confronto institucional.
Em comunicado oficial, a UEFA afirmou que a desistência representa uma vitória para o futebol, mas ressaltou que o processo de reconstrução da confiança na FIFA está apenas começando.
A entidade criticou a existência de projetos secretos, preparados em prazos reduzidos e sem participação das federações e confederações responsáveis pela administração do esporte.
A UEFA também acusou Infantino de descumprir compromissos relacionados à transparência e ao uso dos recursos da FIFA, apresentados durante sua primeira eleição para a presidência, em 2016.
— A atual liderança da FIFA não perdeu apenas a confiança da UEFA, mas também a de muitos outros integrantes da família do futebol — afirmou a confederação.
Embora a declaração represente uma censura política direta, a UEFA não anunciou formalmente um pedido imediato de renúncia. A expressão “nenhuma opção deve ficar fora da mesa”, entretanto, mantém aberta a possibilidade de novas ações contra a administração de Infantino.
Europa havia aprovado boicote total
A pressão decisiva surgiu na quinta-feira (30), quando as 55 federações filiadas à UEFA aprovaram por unanimidade um boicote a todas as competições da FIFA caso o projeto fosse mantido.
A medida poderia atingir:
- Copa do Mundo masculina;
- Copa do Mundo Feminina;
- Mundial de Clubes;
- torneios mundiais de base;
- competições de futsal;
- demais eventos administrados pela FIFA.
A primeira grande competição potencialmente afetada seria a Copa do Mundo Feminina de 2027, organizada pelo Brasil. Em uma crise prolongada, o boicote também poderia comprometer a Copa do Mundo masculina de 2030, cuja sede principal será dividida entre Espanha, Portugal e Marrocos.
A ameaça europeia transformou a proposta em um risco comercial e esportivo. Sem as seleções e os clubes da UEFA, os principais torneios da FIFA perderiam algumas de suas maiores potências, além de mercados importantes de transmissão, patrocínio e venda de ingressos.
Com a retirada do plano, o boicote não será colocado em prática neste momento.
UEFA welcomes FIFA’s withdrawal of plans to sell a stake in the World Cup
— UEFA (@UEFA) August 1, 2026
Concacaf e Ásia também rejeitaram proposta
A FIFA também perdeu apoio fora da Europa.
A Concacaf, responsável pelo futebol na América do Norte, América Central e Caribe, rejeitou a operação. A Confederação Asiática manifestou solidariedade à UEFA e à Concacaf, além de criticar a falta de diálogo durante a elaboração do projeto.
Juntas, UEFA, Concacaf e AFC reúnem 143 associações nacionais, número superior à maioria necessária para aprovar a proposta dentro da FIFA. Mesmo que cada federação tivesse liberdade para votar individualmente, o posicionamento das três confederações demonstrou que Infantino dificilmente conseguiria levar o projeto adiante.
Após o recuo, o presidente da AFC, Salman bin Ibrahim Al-Khalifa, afirmou que o futuro do futebol precisa ser definido por meio de consultas adequadas, diálogo coletivo e respeito às estruturas de governança existentes.
Oferta de recursos provocou acusações de pressão
O projeto previa um aumento considerável nos repasses destinados às federações nacionais.
Infantino havia informado às associações que cada uma poderia ter acesso a até US$ 40 milhões caso o novo modelo fosse aprovado. O valor reuniria recursos regulares do FIFA Forward e uma linha adicional ligada à criação da empresa.
As federações teriam até 19 de setembro para manifestar apoio. A diferença entre os valores prometidos com e sem a aprovação do projeto provocou acusações de pressão financeira, especialmente sobre países que dependem dos repasses da FIFA para manter seleções, campeonatos e estruturas esportivas.
A UEFA argumenta que a entidade mundial já possui dinheiro suficiente para ampliar o financiamento sem vender parte de seus ativos comerciais.
Segundo o comunicado europeu, as reservas da FIFA superam US$ 5 bilhões. A confederação pretende apresentar uma proposta para distribuir parte desses recursos por meio do programa FIFA Forward já existente.
Para a UEFA, o futebol de base e as federações menores precisam receber mais investimentos, mas isso não exige a entrega permanente de uma participação nas receitas futuras da Copa do Mundo.
Crise chegou ao interior da FIFA
A oposição também surgiu entre integrantes da própria administração.
Carlos Cordeiro, assessor sênior de Infantino, renunciou ao cargo com efeito imediato na sexta-feira. O antigo dirigente da Federação de Futebol dos Estados Unidos classificou a operação como um mau negócio para o futebol e pediu que outros funcionários se manifestassem.
Cordeiro questionou a necessidade de levantar US$ 4,2 bilhões mediante a venda de receitas futuras enquanto a FIFA possui reservas elevadas e não enfrenta uma emergência financeira comparável.
Poucas horas depois, Kevin Lamour, diretor de operações da FIFA, afirmou que funcionários haviam sido enganados pela falta de transparência. Ele descreveu a proposta como um projeto concentrado em uma única pessoa e defendeu que os líderes do futebol analisassem as consequências políticas do episódio.
As manifestações internas impediram que a controvérsia fosse apresentada apenas como uma disputa tradicional entre FIFA e UEFA. A renúncia de Cordeiro e a crítica de Lamour mostraram uma divisão dentro da estrutura comandada por Infantino.
Grupo ligado a Joshua Kushner lideraria investimento
A FIFA havia indicado a Thrive Eternal como possível investidora principal da nova empresa.
A plataforma pertence ao grupo criado por Joshua Kushner, irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A operação também estava sendo estruturada com a participação do banco JPMorgan.
A presença de um grupo privado ligado a uma família com fortes conexões políticas aumentou os questionamentos sobre transparência, possíveis conflitos de interesse e critérios utilizados para selecionar os investidores.
A FIFA sustentava que os novos acionistas teriam uma participação minoritária e não poderiam controlar decisões esportivas. Os críticos argumentavam que um investimento de bilhões de dólares criaria inevitavelmente uma pressão por retornos financeiros maiores.
Entre os riscos mencionados estavam novas expansões de torneios, aumento do calendário e decisões comerciais que poderiam elevar a receita da empresa, mesmo que prejudicassem jogadores, clubes ou torcedores.
Federação Inglesa pede revisão da liderança
A Federação Inglesa apoiou integralmente a manifestação da UEFA e pediu uma revisão ampla e rigorosa da liderança e da governança da FIFA.
Para a FA, o futebol mundial precisa ser administrado com transparência e pensando nos interesses de longo prazo das 211 associações filiadas.
A Federação Holandesa foi ainda mais direta. A entidade afirmou que não possui mais confiança na liderança de Infantino e que a retirada do projeto não resolve a ruptura provocada pela forma como as negociações foram conduzidas.
Federações da Bélgica, Suécia e Austrália também defenderam maior independência, transparência, diálogo e respeito aos procedimentos de governança.
A reação demonstra que o recuo evitou uma ruptura imediata, mas não recuperou automaticamente a posição política do presidente da FIFA.
Futuro de Infantino entra em discussão
Infantino deverá disputar uma nova eleição para a presidência da FIFA em 2027. Os interessados em concorrer têm até 18 de novembro para apresentar suas candidaturas, e a votação será realizada em Rabat, no Marrocos.
O dirigente ainda possui uma rede importante de apoio, principalmente entre federações que receberam aumento de recursos durante seus mandatos. No entanto, a perda pública da confiança da UEFA e a oposição de outras confederações podem incentivar o surgimento de um adversário.
Segundo a Reuters, Victor Montagliani, presidente da Concacaf, é apontado como um possível candidato. Nenhuma candidatura havia sido anunciada oficialmente até a retirada do projeto.
Esta não foi a primeira proposta de grande alcance abandonada durante a presidência de Infantino. Em 2018, ele tentou avançar com uma operação de US$ 25 bilhões envolvendo novas competições. Em 2021, defendeu a realização da Copa do Mundo a cada dois anos. As duas iniciativas também foram retiradas depois de forte resistência.
O episódio atual, porém, produziu uma reação mais ampla. Além da oposição externa, houve ameaça formal de boicote, renúncia de um assessor próximo e críticas públicas de um diretor da FIFA.
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Ao retirar o projeto, Infantino afirmou que pretende reunir novamente os diferentes participantes do futebol para discutir formas de ampliar os investimentos.
O presidente reforçou que o objetivo continuará sendo o crescimento da modalidade, especialmente nos países que mais dependem do apoio financeiro da FIFA.
A UEFA concorda com a necessidade de aumentar os repasses, mas pretende apresentar um modelo baseado na utilização das reservas já disponíveis. A entidade trabalhará com federações, clubes, ligas, jogadores e outras confederações para formular uma alternativa dentro do FIFA Forward.
O plano de US$ 20 bilhões foi abandonado poucos dias depois de sua apresentação. A crise criada durante esse período, entretanto, continuará influenciando a relação entre FIFA e UEFA.
Infantino evitou o boicote ao retirar a proposta. Agora, terá que enfrentar um problema político maior: demonstrar que ainda possui confiança suficiente para continuar liderando o futebol mundial.





