
A FIFA pediu desculpas às suas 211 associações nacionais pelos erros cometidos na apresentação do projeto que permitiria a entrada de investidores privados em parte de seus negócios comerciais. Apesar do reconhecimento das falhas, a direção da entidade confirmou que Gianni Infantino permanecerá na presidência.
A posição foi divulgada depois de uma reunião de crise realizada nesta quarta-feira (5), em Rabat, no Marrocos. O encontro reuniu Infantino, o secretário-geral Mattias Grafström e integrantes do conselho administrativo da FIFA, após uma semana marcada por críticas públicas, ameaças de boicote, perda de apoio político e manifestações de insatisfação dentro da própria organização.
Segundo a FIFA, os dirigentes presentes reafirmaram “apoio total” a Infantino. A entidade também ressaltou que ele é o único integrante da atual estrutura de comando escolhido diretamente pelas 211 federações nacionais. O presidente, por sua vez, declarou apoio ao secretário-geral e aos funcionários responsáveis pela administração.
A manifestação encerra, pelo menos temporariamente, as especulações sobre uma saída imediata. Não significa, porém, que a maior crise enfrentada por Infantino desde sua chegada ao cargo, em 2016, esteja resolvida.
Reunião durou cerca de sete horas
As conversas em Rabat se estenderam por aproximadamente sete horas.
A reunião havia sido convocada depois que figuras importantes da FIFA se distanciaram publicamente do projeto chamado FIFA Forward Enterprise, conhecido pela sigla FFE. A proposta previa a criação de uma empresa que reuniria as operações comerciais e os eventos administrados pela entidade.
A FIFA pretendia vender cerca de 20% dessa nova estrutura a investidores privados. A empresa seria avaliada em aproximadamente US$ 20 bilhões, e a negociação poderia gerar cerca de US$ 4,2 bilhões para programas de desenvolvimento do futebol.
Depois da reação internacional, Infantino abandonou o plano na última sexta-feira. A retirada, entretanto, não foi suficiente para encerrar as críticas sobre a forma como a proposta foi preparada e apresentada.
A direção convocou a reunião para tentar recompor sua unidade interna e demonstrar que Infantino ainda mantém o controle administrativo da organização.

FIFA reconhece erros na condução do projeto
Em sua nota, a FIFA reconheceu que o processo deveria ter sido conduzido de outra maneira.
A entidade afirmou que não pretendia fazer com que o Conselho da FIFA e as associações nacionais se sentissem excluídos. Também admitiu falhas depois que o conteúdo da proposta chegou à imprensa antes de uma discussão completa com os responsáveis pela governança do futebol.
Uma carta separada foi enviada aos integrantes do Conselho e às 211 associações filiadas. No documento, a FIFA apresentou um pedido de desculpas e prometeu evitar que situações semelhantes voltem a ocorrer.
A entidade realizará uma revisão interna sobre o desenvolvimento, a comunicação e a apresentação do FIFA Forward Enterprise. O resultado será entregue ao Conselho da FIFA em sua próxima reunião.
A FIFA não informou quem ficará responsável pela análise, quais documentos serão examinados ou se a investigação poderá resultar em punições administrativas.
Entidade defende que não houve violação das regras
Apesar do pedido de desculpas, a FIFA sustentou que todos os procedimentos adotados estavam de acordo com seu regulamento.
A organização reconheceu erros políticos e de comunicação, mas rejeitou a interpretação de que o projeto tenha violado formalmente suas regras internas. Segundo a nota, a proposta ainda dependeria da aprovação das associações nacionais e do Conselho antes de entrar em vigor.
O comunicado também adotou uma posição mais dura contra os críticos. A FIFA declarou que, com o encerramento do projeto, não aceitará novos ataques contra sua integridade, sua governança ou seu processo decisório, e prometeu tomar as medidas necessárias para proteger seu nome e sua reputação.
A combinação de pedido de desculpas e advertência aos opositores resume a estratégia da entidade após a reunião: reconhecer que houve falhas, mas impedir que o episódio seja utilizado como justificativa automática para afastar Infantino.

O que era o FIFA Forward Enterprise
O FIFA Forward Enterprise seria uma nova subsidiária controlada pela própria FIFA.
A empresa concentraria operações comerciais e eventos ligados às principais competições da entidade, incluindo as Copas do Mundo masculina e feminina e os Mundiais de Clubes. Uma participação minoritária seria vendida a investidores privados.
A FIFA argumentava que continuaria com a maioria das ações e manteria autoridade exclusiva sobre regulamentos, calendários, formatos e decisões esportivas. O investimento privado estaria limitado principalmente à área comercial.
Infantino defendia que os recursos permitiriam ampliar para mais de US$ 10 bilhões os investimentos destinados ao desenvolvimento do futebol. As 211 associações receberiam novos valores por meio do programa FIFA Forward.
Os críticos afirmavam que a entrada de investidores criaria uma influência permanente sobre competições que pertencem ao patrimônio esportivo das federações e dos torcedores.
A falta de informações detalhadas sobre os investidores, a governança da empresa, a distribuição dos lucros e o papel futuro de Infantino aumentou a resistência.
Ligação com família de Trump ampliou crise
Outro ponto de preocupação foi a presença de uma empresa relacionada à família do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
De acordo com a Associated Press, o principal investidor apresentado pela FIFA seria uma empresa de Nova York criada por Joshua Kushner. Ele é irmão de Jared Kushner, genro de Trump.
A relação ganhou importância devido à proximidade pública entre Infantino e o presidente norte-americano. Os dois participaram juntos de diferentes atividades ligadas à Copa do Mundo de 2026, realizada nos Estados Unidos, México e Canadá.
O envolvimento de um grupo relacionado à família de Trump gerou questionamentos sobre conflitos de interesse, transparência e possíveis benefícios políticos ou comerciais. Nenhuma ilegalidade relacionada à empresa foi demonstrada, mas a ausência de uma consulta mais ampla aumentou as suspeitas dos opositores.
UEFA ameaçou boicotar competições da FIFA
A reação mais forte partiu da UEFA.
As 55 federações europeias rejeitaram conjuntamente o projeto e chegaram a anunciar que suas seleções não participariam de competições organizadas pela FIFA enquanto a proposta permanecesse em discussão.
A ameaça poderia atingir a próxima Copa do Mundo e praticamente impedir a continuidade do projeto. A Europa reúne algumas das seleções mais importantes, os campeonatos nacionais de maior valor comercial e uma parcela fundamental dos jogadores que participam dos torneios internacionais.
A Concacaf, responsável pela América do Norte, América Central e Caribe, também se posicionou contra a proposta. A Confederação Asiática defendeu que uma mudança dessa dimensão exigia diálogo coletivo e respeito às estruturas estabelecidas.
Diante do risco de isolamento político e esportivo, Infantino retirou o plano.
A UEFA, porém, não considerou o recuo suficiente. A entidade afirmou ter perdido a confiança na liderança da FIFA e defendeu que os responsáveis fossem identificados e responsabilizados.
Crise atingiu a própria direção da FIFA
A oposição não ficou limitada às confederações e federações nacionais.
Mattias Grafström, secretário-geral da FIFA, enviou uma mensagem aos funcionários classificando o episódio como uma sequência “triste e reprovável” de acontecimentos. Ele afirmou que a organização havia sido colocada no centro de uma crise difícil de compreender.
Kevin Lamour, diretor de operações, declarou que os funcionários haviam sido enganados durante a preparação da proposta. O dirigente classificou o FFE como o projeto de uma única pessoa, numa referência indireta a Infantino.
Carlos Cordeiro, então conselheiro de Infantino e representante da FIFA em um grupo de trabalho da Casa Branca, renunciou em protesto. Ele pediu que outros dirigentes também se manifestassem.
Arsène Wenger, diretor de Desenvolvimento do Futebol Global, afirmou que não havia participado da elaboração e que soube dos detalhes por meio da imprensa. O ex-treinador considerou indispensável retirar o projeto.
A reunião em Rabat teve como uma de suas principais funções reconstruir publicamente a relação entre Infantino e Grafström. Depois do encontro, ambos foram vistos juntos numa partida da Copa Africana de Nações Feminina.
Apoio interno não representa apoio de todas as federações
O comunicado afirma que Infantino conta com respaldo da direção administrativa da FIFA.
Esse grupo, entretanto, não representa automaticamente a posição das 211 associações que participam da eleição presidencial. O futuro do dirigente dependerá dos votos dessas federações no próximo Congresso.
Algumas entidades europeias já retiraram o apoio que haviam oferecido à candidatura. A UEFA também procura um nome capaz de enfrentar Infantino na eleição. Até agora, porém, nenhum adversário foi oficialmente apresentado.
O presidente continua recebendo manifestações favoráveis de países como Marrocos, Catar, Kuwait, Líbano, Sri Lanka, Indonésia e Filipinas. Sua maior base política permanece em regiões que dependem fortemente dos programas de desenvolvimento financiados pela FIFA.
Essa divisão mostra que a crise não segue apenas uma separação entre funcionários favoráveis ou contrários. Existe uma disputa entre federações que valorizam a distribuição financeira promovida por Infantino e entidades que exigem maior controle sobre suas decisões.
Primeiro-ministro do Canadá retira confiança
A pressão aumentou poucas horas antes da divulgação do comunicado.
Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, afirmou que não confia mais em Infantino. Para ele, deixar de consultar conselheiros, membros do Conselho e dirigentes responsáveis pela administração representa uma falha de governança que deveria determinar a saída de qualquer líder.
O posicionamento possui peso simbólico porque o Canadá foi um dos países que organizaram a Copa do Mundo de 2026 ao lado de Estados Unidos e México. Carney participou de atividades da competição ao lado do presidente da FIFA.
Luis Figo também pediu a renúncia de Infantino. O antigo jogador português, que chegou a planejar uma candidatura à presidência da FIFA em 2015, acusou o dirigente de utilizar o cargo em benefício próprio.
As manifestações indicam que o apoio obtido na reunião administrativa não encerra a pressão externa.
Infantino pretende disputar novo mandato
Gianni Infantino comanda a FIFA desde fevereiro de 2016.
O dirigente foi reeleito sem adversários em 2019 e novamente em 2023. Em abril deste ano, confirmou que pretende disputar mais um mandato.
A próxima eleição acontecerá em 18 de março de 2027, durante o 77º Congresso da FIFA, em Rabat. O vencedor poderá permanecer na presidência até 2031.
Os possíveis candidatos terão até 18 de novembro de 2026 para formalizar a participação. Até o momento, Infantino continua sendo o único nome declarado na disputa.
Em uma eleição com mais de um candidato, são necessários pelo menos 106 votos para garantir a maioria entre as 211 associações.
A crise transformou uma reeleição que parecia praticamente garantida em um processo mais imprevisível. A UEFA possui 55 integrantes, enquanto Ásia e Concacaf também manifestaram oposição ao projeto.
Isso não significa que todos os países dessas regiões votarão contra Infantino. As federações decidem individualmente e podem adotar posições diferentes das confederações continentais.
Congresso extraordinário ainda é possível
Os opositores também podem tentar antecipar a discussão.
De acordo com os estatutos, um Congresso Extraordinário poderá ser solicitado caso pelo menos 43 associações nacionais apresentem um pedido formal por escrito.
Esse encontro poderia discutir uma moção de desconfiança, mudanças na governança ou outras medidas relacionadas à presidência.
Até agora, não existe confirmação de que o número necessário de pedidos tenha sido alcançado. A reunião de Rabat buscou justamente impedir que a insatisfação interna e externa avance até esse estágio.
A declaração de apoio da direção também permite que Infantino argumente que continua exercendo normalmente suas funções.
Revisão será novo teste para a FIFA
A permanência de Infantino está garantida no curto prazo, mas a revisão prometida pela FIFA será decisiva para a credibilidade da resposta.
A investigação precisará explicar quem elaborou a proposta, quando os principais dirigentes foram informados, como os investidores foram selecionados e por que as associações receberam um prazo tão curto para avaliá-la.
Também deverá esclarecer por que integrantes importantes da administração alegaram desconhecer detalhes de um projeto que alteraria a estrutura comercial da entidade.
Caso o relatório apenas atribua os problemas à comunicação, as federações críticas poderão acusar a FIFA de tentar proteger seu presidente.
Se identificar responsabilidades individuais e recomendar mudanças reais de governança, a apuração poderá ajudar Infantino a reconstruir parte do apoio perdido.
Crise continua apesar do apoio anunciado
A reunião produziu uma imagem de unidade na cúpula da FIFA.
Grafström e os integrantes do conselho administrativo apoiaram a continuidade de Infantino. O presidente pediu desculpas pelos erros e prometeu melhorar os processos internos. O projeto que provocou a crise foi definitivamente abandonado.
Nenhuma dessas medidas, entretanto, elimina as críticas feitas por UEFA, Concacaf, dirigentes nacionais e funcionários da própria entidade.
A FIFA optou por reconhecer falhas sem admitir irregularidades. Pediu desculpas às federações, mas afirmou que não aceitará novos ataques à sua integridade. Confirmou uma revisão, mas manteve no cargo o dirigente apontado pelos críticos como principal responsável pela proposta.
Infantino sobrevive à reunião de crise e continuará comandando a entidade. Seu desafio agora será transformar o respaldo da administração em votos suficientes para permanecer na presidência depois de março de 2027.




