FIFA pretende vender parte de empresa avaliada em US$ 20 bilhões

Entidade planeja criar uma subsidiária para administrar operações comerciais e competições, incluindo a Copa do Mundo; proposta provocou forte reação da UEFA

(FILES) In this file photo taken on October 14, 2016 FIFA president Gianni Infantino smiles after a meeting of the FIFA Council at the world football’s governing body headquarters in Zurich. – FIFA President Gianni Infantino is set to serve a second term after world football’s governing body said on February 6, 2019 he would be the only candidate for June’s vote. (Photo by FABRICE COFFRINI / AFP)

A FIFA anunciou um plano para criar uma empresa avaliada inicialmente em US$ 20 bilhões e vender uma participação minoritária a investidores privados. A nova subsidiária concentraria as principais operações comerciais da entidade e a organização de competições, incluindo a Copa do Mundo.

Batizada de FIFA Forward Enterprise (FFE), a companhia reuniria direitos de transmissão, patrocínios, venda de ingressos, licenciamentos e a operação dos torneios masculinos, femininos e de base organizados pela FIFA.

A entidade pretende oferecer aos investidores uma participação de até 20% na empresa. A operação poderia levantar até US$ 4,2 bilhões, valor que seria utilizado para ampliar os programas de desenvolvimento do futebol nas 211 federações filiadas.

Apesar de envolver capital privado, a FIFA afirma que manteria o controle da nova empresa. Os investidores teriam participações minoritárias, sem poder para interferir na administração do futebol ou nas decisões esportivas.

A criação da subsidiária ainda depende da aprovação da maioria das federações nacionais e do Conselho da FIFA. Portanto, a operação ainda não está concluída.

Nova empresa administraria negócios da Copa do Mundo

A FIFA Forward Enterprise seria responsável pela administração comercial e operacional das competições da entidade. Isso significa que a empresa controlaria áreas importantes relacionadas à Copa do Mundo, como contratos de televisão, publicidade, ingressos e licenciamento de produtos.

A FIFA continuaria responsável pelas regras, pelo calendário internacional, pelo formato das competições e pelas demais decisões esportivas. Segundo a entidade, os investidores não teriam qualquer função operacional dentro da organização.

O projeto representa uma mudança significativa na forma como a FIFA administra seus ativos mais valiosos. Atualmente, a entidade funciona como uma organização sem fins lucrativos e obtém grande parte de suas receitas por meio dos contratos comerciais ligados à Copa do Mundo.

A proposta transformaria essas operações em uma estrutura empresarial própria, aberta à entrada de investidores externos.

Fundo ligado a Joshua Kushner lideraria investimento

A FIFA informou que o grupo interessado no negócio deverá ser liderado pela Thrive Eternal, plataforma de investimentos criada pela Thrive Capital, do empresário norte-americano Joshua Kushner.

Joshua é irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo a Reuters, Jared Kushner não participa do grupo de possíveis investidores.

A Thrive Eternal foi criada para realizar investimentos de longo prazo em empresas, franquias e instituições de relevância cultural. O grupo também adquiriu recentemente uma participação minoritária no San Francisco Giants, equipe da Major League Baseball.

O JPMorgan trabalha com a FIFA na busca por investidores. Greg Maffei, ex-presidente da Liberty Media, também participa do projeto como consultor comercial.

FIFA promete ampliar repasses às federações

Gianni Infantino defende que o dinheiro obtido com a venda das participações seja utilizado para aumentar os investimentos no futebol mundial.

A FIFA pretende criar o programa Fast-Forward, que permitiria a cada federação solicitar até US$ 20 milhões imediatamente para projetos especiais. Os recursos poderiam ser aplicados em infraestrutura, formação de treinadores, seleções nacionais, futebol feminino, categorias de base e competições locais.

O programa regular FIFA Forward também passaria por uma ampliação. Atualmente, cada federação tem um orçamento previsto de US$ 8 milhões para o ciclo entre 2027 e 2030. Com a nova estrutura, esse valor subiria para US$ 20 milhões.

A proposta prevê repasses de US$ 22 milhões por federação entre 2031 e 2034 e de US$ 24 milhões no ciclo entre 2035 e 2038. Somados a outros programas, os investimentos da FIFA no desenvolvimento do futebol poderiam superar US$ 10 bilhões nos próximos quatro anos.

Infantino classificou a iniciativa como uma forma de democratizar o futebol e distribuir melhor os recursos gerados pelas grandes competições.

UEFA critica plano da FIFA

A proposta provocou forte reação da UEFA. A entidade europeia acusou a FIFA de tentar comercializar a estrutura e a administração do futebol mundial sem transparência suficiente.

Em comunicado, a UEFA afirmou que a governança e a identidade do futebol não deveriam ser tratadas como ativos financeiros. A entidade também questionou quem seria beneficiado economicamente pela operação e criticou a ausência de consultas anteriores.

A Concacaf, responsável pelo futebol na América do Norte, América Central e Caribe, declarou que tomou conhecimento do projeto inicialmente por meio da imprensa. A confederação demonstrou preocupação com a falta de participação das entidades regionais nas discussões.

A Confederação Asiática de Futebol também criticou o processo. A AFC afirmou que uma proposta dessa dimensão deveria ser analisada com mais tempo e transparência, especialmente por envolver consequências comerciais, jurídicas e esportivas.

A Federação Inglesa informou que desconhecia os detalhes do projeto antes de sua divulgação pública. A entidade declarou estar preocupada com a forma como o plano foi desenvolvido e apresentado.

Proposta aumenta tensão entre FIFA e UEFA

A discussão abre um novo capítulo na disputa política e financeira entre FIFA e UEFA. As duas entidades possuem visões diferentes sobre a distribuição das receitas geradas pelo futebol.

Enquanto a UEFA controla as competições de clubes mais lucrativas do mundo, como a Champions League, a FIFA busca ampliar a importância de seus torneios e aumentar os repasses para países que possuem mercados esportivos menores.

A estratégia de Infantino deverá encontrar apoio principalmente entre federações que dependem dos recursos da FIFA para financiar suas seleções, campeonatos e estruturas esportivas. Por outro lado, o projeto enfrenta resistência das principais entidades europeias e de dirigentes que temem a influência de investidores privados sobre o futebol.

A FIFA afirma que venderia apenas uma participação minoritária da subsidiária e que todos os benefícios líquidos seriam reinvestidos no esporte. A aprovação, entretanto, dependerá das 211 federações filiadas e do Conselho da entidade.

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