
O Grêmio está muito perto de encerrar a passagem de Gabriel Mec pelo clube com uma sensação dividida. Aos 18 anos, o meia-atacante foi negociado com o Porto por € 10 milhões, aproximadamente R$ 60 milhões, uma cifra relevante para um jogador tão jovem, mas distante das expectativas que cercaram uma das principais promessas recentes da base tricolor. Internamente, o clube chegou a projetar uma transferência na casa dos € 20 milhões, exatamente o dobro do valor aceito agora.
O acordo entre Grêmio e Porto já está encaminhado, e Gabriel Mec viajou para concluir exames médicos e acertar os últimos detalhes com o clube português. O Grêmio possui 80% dos direitos econômicos do jogador e, portanto, ficará com a maior parte da operação. O Porto começou oferecendo € 8 milhões e elevou a proposta até os € 10 milhões necessários para convencer a direção gaúcha.
O que chama atenção não é apenas o valor final, mas a trajetória das propostas recebidas pelo jovem. Em 2024, quando Gabriel Mec tinha somente 16 anos, o Chelsea apresentou uma oferta inicial de € 15 milhões. As conversas avançaram para um negócio que poderia atingir € 24 milhões com metas, mas o clube inglês desistiu antes da assinatura. Um ano depois, o Shakhtar Donetsk também ofereceu € 15 milhões, proposta aceita pelo Grêmio e recusada pelo jogador.
Depois daquela negociação frustrada, dirigentes gremistas ainda acreditavam que uma sequência no profissional poderia elevar Gabriel Mec para uma transferência na faixa dos € 20 milhões. O cenário esperado, porém, não se confirmou. Em 2026, o Shakhtar voltou com uma oferta menor, de € 12 milhões, novamente aceita pelo clube e recusada pelo atleta. Agora, poucos meses depois, o Grêmio concordou com os € 10 milhões apresentados pelo Porto.
De joia de € 20 milhões a jogador negociado por € 10 milhões
A desvalorização está diretamente relacionada à dificuldade de Gabriel Mec em transformar o enorme potencial demonstrado nas categorias de base em protagonismo imediato no profissional.
Com Luís Castro, o meia-atacante recebeu mais oportunidades em 2026. Foram 32 partidas, 14 como titular, três gols e quatro assistências. Os números, porém, não provocaram no mercado europeu a valorização esperada pela direção. Depois da pausa para a Copa do Mundo, Gabriel Mec perdeu ainda mais espaço e participou de apenas quatro dos dez primeiros jogos do Grêmio no retorno da temporada.
A comissão técnica atribuiu a redução das oportunidades principalmente a uma mudança tática. Luís Castro passou a utilizar um meio-campo com três jogadores de características mais marcadoras, eliminando a função centralizada de criação na qual Mec encontrava boa parte de seu espaço. Ao mesmo tempo, o estafe do jovem demonstrava insatisfação com a utilização reduzida.
Nos bastidores, também começaram a surgir dúvidas sobre quanto tempo seria necessário para que Gabriel Mec se consolidasse entre os principais jogadores da equipe. Para um clube pressionado financeiramente, esperar por uma valorização futura significava também aceitar o risco de novas propostas ainda menores.
Grêmio precisava vender
A situação financeira teve peso importante na decisão. Mesmo depois de negociar Viery com a Fiorentina por € 15 milhões em junho, o Grêmio registrou déficit de R$ 33 milhões no segundo trimestre e continuou buscando uma nova venda para aliviar seu fluxo de caixa. Gabriel Mec tornou-se o principal ativo disponível para cumprir esse papel.
O clube também enfrenta um momento de maior controle de despesas e negocia um plano para pagamento de dívidas dentro das novas regras financeiras da CBF. A gestão já promoveu redução da folha e passou a trabalhar com limitações maiores sobre quanto pode gastar em relação ao que arrecada com negociações.
Havia ainda outra preocupação. O contrato de Gabriel Mec terminava em setembro de 2027. Grêmio e jogador chegaram a encaminhar uma renovação, mas o novo vínculo não foi assinado. O estafe afirmou publicamente que aceitaria prolongar o contrato caso nenhuma transferência acontecesse nesta janela, mas a direção preferiu não assumir o risco de chegar a 2027 com o atleta ainda sem renovação e com valor de mercado novamente reduzido.
O contraste com outras grandes bases brasileiras
A negociação também levanta uma discussão maior sobre como os clubes brasileiros conseguem transformar talento da base em dinheiro.
Nos últimos anos, equipes como o Palmeiras estabeleceram um padrão extremamente elevado de vendas de jovens ao futebol europeu. Jogadores que chegam rapidamente ao profissional, acumulam minutos em partidas importantes e despertam concorrência entre gigantes europeus acabam negociados por cifras muito superiores.
Gabriel Mec chegou a apresentar todos os elementos para seguir trajetória semelhante. Foi tratado como uma das maiores promessas de sua geração no Grêmio, entrou cedo no radar de Chelsea, Liverpool e Shakhtar e teve propostas milionárias ainda adolescente. O que faltou foi justamente o passo que mais influencia o preço final: a consolidação no time principal.
A diferença entre os € 20 milhões imaginados pelo Grêmio e os € 10 milhões aceitos agora mostra como a valorização de uma promessa está longe de ser automática. Potencial e interesse internacional ajudam, mas sequência, desempenho no profissional, situação contratual e necessidade financeira do clube também determinam quanto o mercado está disposto a pagar.
Venda pode ser boa para o Porto mesmo após frustração gremista
Do ponto de vista do Porto, a operação apresenta exatamente o tipo de oportunidade que historicamente atrai o clube português. Gabriel Mec ainda tem apenas 18 anos e chegará à Europa antes de atingir seu teto técnico. Se conseguir desenvolver em Portugal o potencial que despertou interesse de alguns dos maiores clubes europeus, os € 10 milhões podem acabar representando um investimento bastante valorizável.
Para o Grêmio, a avaliação é diferente. O clube transforma uma promessa da base em uma receita importante num momento financeiro delicado, mas encerra o ciclo recebendo menos do que propostas recusadas ou frustradas anteriormente e metade do valor que chegou a imaginar para sua maior joia recente.
A história de Gabriel Mec mostra, portanto, o outro lado do mercado de jovens no futebol brasileiro. Nem toda promessa tratada como futura venda recorde chega ao momento da transferência em valorização constante. Às vezes, esperar pode multiplicar o preço. Em outras, como aconteceu com o Grêmio, o mercado começa a oferecer cada vez menos.




