
Na maioria dos casos, para estar no seleto grupo de jogadores convocados para uma Copa do Mundo é preciso fazer parte do ciclo. Ou seja, ser lembrado durante boa parte dos quatro anos que antecedem o Mundial.
Mas para Leonardo Pereira, nascido em 31 de janeiro de 1996 em Curitiba, o ciclo foi bem diferente. E bem mais curto. O zagueiro de 30 anos teve a primeira oportunidade na Seleção faltando dois meses para a definição da lista final. Jogou os amistosos contra França e Croácia, encantou Ancelotti no período e carimbou a vaga.
Mas essa história começa bem lá atrás. Foi jogando no Trieste, clube tradicional da base curitibana, que deu os primeiros passos no futebol. Na época atuava como lateral-esquerdo, fazia gols de cabeça, cobrava faltas e chamava atenção pela imposição física ainda muito novo.
Com quase um metro e noventa de altura, o treinador achou que ele seria melhor como zagueiro. Léo aceitou a mudança sem saber que ela seria definidora para sua carreira. As boas atuações chamaram atenção dos grandes rivais de Curitiba. Furacão e Coxa disputaram a contratação, com os rubro-negros levando a melhor.
Chegou ao clube em 2010 e rapidamente passou a ser tratado como uma das referências da base. Aos 16 anos já atuava no sub-18 e acumulava convocações para seleções brasileiras inferiores. A estreia como profissional aconteceu em 2013, mas a consolidação demoraria alguns anos, após inúmeros empréstimos.
Léo passou por Guaratinguetá, Náutico e Orlando City B, nos Estados Unidos, até retornar ao Athletico mais preparado física e mentalmente para disputar espaço no elenco principal. Foi com Tiago Nunes, a partir de 2018, que deixou de ser promessa para virar realidade.
Naquele time intenso e competitivo, Léo Pereira virou titular absoluto. Formou uma defesa sólida ao lado de Thiago Heleno, ganhou a Copa Sul-Americana de 2018 e a Copa do Brasil de 2019.
Além da força física e do jogo aéreo, chamou atenção pela capacidade de construção a partir do setor defensivo, com boa qualidade nos passes, característica que começava a a ser cada vez mais valorizada no futebol moderno.

Surge outro rubro-negro no caminho
Com os títulos de 2019 e cada vez mais poderoso financeiramente, o Flamengo foi ao mercado no início de 2020 para reforçar ainda mais o elenco campeão da Libertadores e Brasileiro. Com a saída de Pablo Mari, contratar um zagueiro virou prioridade e Léo Pereira foi o escolhido.
Depois de muita negociação e algumas negativas dos paranaenses, o negócio finalmente foi concretizado por 34 milhões de reais, valor considerado alto em 2020 para transações envolvendo clubes do futebol brasileiro.
Chegar ao Flamengo campeão e com Jorge Jesus no comando significava estar em um dos ambientes mais exigentes do futebol sul-americano. Além da pressão natural por resultados, Léo ainda carregava o peso de ter sido uma contratação cara para substituir uma peça importante da histórica equipe de 2019.
Os primeiros anos foram marcados por erros, insegurança e críticas constantes. Nas redes sociais e nas arquibancadas, surgiu o apelido “Flop Pereira”, usado por parte da torcida para ironizar o desempenho do zagueiro, indicando que a contratação havia sido equivocada.
Sem agradar a torcida e conseguir se firmar no clube, o zagueiro convivia com o constante entra e sai do time titular, perdia espaço em determinados momentos e convivia com a sensação de que dificilmente conseguiria recuperar prestígio no clube. Houve sondagens do futebol mexicano, mas nenhuma proposta atingiu os valores desejados pelo Flamengo.
Com a necessidade de dar uma resposta, ele mudou. Pessoas próximas ao jogador relatam que Léo Pereira mudou hábitos físicos, intensificou o trabalho individual e passou a buscar evolução principalmente na concentração durante os jogos.
Flamengo: dois anos de irregularidade e a virada com Dorival
Quando chegou de volta ao rubro-negro em 2022, o treinador reorganizou a defesa do Flamengo e deu sequência a dupla formada por Léo e David Luiz. A parceria funcionou rapidamente. Mais experiente, os ex-jogador da Seleção teve papel importante nos bastidores e chegou a defender publicamente o companheiro diante das críticas.
Dentro de campo, a resposta apareceu. Léo Pereira teve um dos melhores anos da carreira em 2022. Seguro nos duelos, dominante pelo alto e mais confortável na saída de bola, virou peça central da campanha dos títulos da Copa do Brasil e da Libertadores. Antes associado a falhas e irregular, passou a ser tratado como um dos líderes do elenco, dentro e fora de campo.

Um 2025 histórico e a profecia de Marquinhos
No ano passado, com o Flamengo mais uma vez ganhando Brasileirão e Libertadores na mesma temporada, o zagueiro foi um dos destaques do time. Com poucas opções confiáveis na zaga, o técnico Filipe Luis praticamente não poupou Léo Pereira durante a temporada. Foram 63 jogos, 62 deles como titular, e 6 gols marcados.
Durante todo ano, esperou ser lembrado. Não pelo que fazia em 2025, mas por todo o crescimento e evolução adquiridos no Flamengo. Em entrevista ao ge.com durante o Mundial de Clubes em dezembro, admitiu o incômodo:
— Não é que é doloroso. Não é a palavra. Mas eu fico incomodado. Não tem como. É algo que busco diariamente. Não estou me preparando desde o início do ano para chegar na Seleção em 2026, não é isso. Mas me preparo a cada semana para jogar e performar. Quando vejo que estou preparado, pronto e fazendo as coisas acontecerem, fluírem e estou no melhor momento da carreira… falei em uma entrevista esses dias: o que posso fazer a mais? O que falta? — desabafou.
Dias depois, após a derrota na final contra o PSG, quando perdeu um dos pênaltis, o zagueiro ouviu uma frase de Marquinhos, jogador do clube francês e capitão da Seleção Brasileira, que acabou virando uma profecia.
Ainda no gramado, abatido pelo resultado, foi consolado pelo colega brasileiro, mas num tom que nem Léo esperava.
– Ele me surpreendeu e comentou: “quem sabe a gente vai estar junto um dia na seleção?”. Ele comentou, e eu triste na hora, bem cabisbaixo, mas aconteceu. São palavras que guardei comigo.

A primeira convocação e o carimbo para a Copa do Mundo
As palavras de Marquinhos não demoraram para virar realidade. Em março de 2026, Carlo Ancelotti convocou Léo Pereira para os amistosos contra França e Croácia, os últimos antes da lista definitiva da Copa do Mundo. Era a primeira convocação dele para a Seleção e a estreia aconteceu justamente diante da França, uma das seleções com maior poderio ofensivo da atualidade.
Apesar da derrota brasileira por 2 a 1, Ancelotti elogiou a atuação defensiva do zagueiro, que também não escondeu a alegria pela própria estreia.
– É uma felicidade que não cabe no peito. Minha passagem pelo Flamengo é marcada pela minha resiliência e por eu, minha família e os mais próximos não termos deixado de acreditar.
Contra a Croácia, atuou os 90 minutos ao lado de Marquinhos na vitória brasileira por 3 a 1 e fortaleceu a candidatura para estar na Copa do Mundo.
Aos 30 anos, Léo Pereira chega ao Mundial de 2026 como um dos nomes mais improváveis da lista brasileira. O zagueiro que viveu de tudo no Flamengo, ouviu vaias, quase saiu sem prestígio, foi campeão, capitão e líder, trabalhou em silêncio e reconstruiu a própria imagem para, na reta final, garantir sua vaga na Copa do Mundo.





