
Para quem não conhece, Paquetá é uma pacata ilha no Rio de Janeiro. Com clima bucólico, até pouco tempo atrás tinha apenas bicicletas e charretes como meio de transporte, veículos com motor eram proibidos.
Foi nesse lugar que cresceu Lucas Tolentino, mais conhecido pelo nome da ilha do que pelo próprio sobrenome. Mas para contar a história do camisa 20 da Seleção Brasileira, é preciso saltar no tempo e começar por 2023. Naquele ano, a carreira do jogador sofreu um duro baque que o fez mudar de rumo e quase ficar fora da Copa do Mundo de 2026.
Em agosto de 2023, ele estava muito perto do maior salto da carreira. Depois de se firmar na Premier League com a camisa do West Ham, o meia brasileiro entrou na mira do Manchester City, então campeão europeu e principal potência do futebol inglês.
Seria jogador de Pep Guardiola e faria parte de um dos melhores times do mundo e uma das principais potências europeias dos últimos dez anos.
O acordo, porém, nunca saiu. Quando a transferência tinha tudo para se concretizar, vieram à tona as primeiras informações sobre uma investigação da Federação Inglesa envolvendo cartões amarelos recebidos pelo jogador em partidas da Premier League. Paquetá foi acusado de manipulação de resultados para beneficiar parentes e amigos em casas de apostas.
O City recuou e o West Ham segurou o brasileiro, que passou a conviver com uma sombra que duraria quase dois anos. No fim, Paquetá foi inocentado mas não via mais clima para seguir na Inglaterra. Mesmo com propostas, preferiu voltar para casa. Não para a ilha onde deu os primeiros chutes, mas para o clube onde tudo começou.
Flamengo: das viagens de barca a ídolo da torcida
A relação de Lucas Paquetá com o Flamengo começou muito antes da estreia profissional. Ele chegou ao rubro-negro com 9 anos de idade. Nos dois anos seguintes, precisou encarar o longo trajeto que envolvia barca e mais conduções para cruzar a Baía de Guanabara e chegar aos treinos.
“Meu irmão já era do Flamengo, e a única pessoa que podia nos levar era meu avô. Meu irmão treinava no Ninho às 14h horas e eu treinava às 19h na Gávea. Então eu tinha que descer às 10h pra ir com meu irmão, esperava lá com meu avô, depois ia pra Gávea, treinava no futsal, voltava na última barca, meia-noite, cansado. Chegava em casa à 1h e tinha que descansar para no dia seguinte estar lá de novo. Era bem puxado, mas valeu a pena todo o esforço”, contou o jogador, em 2018, ao Globo Esporte.
O esforço quase não foi suficiente. Hoje conhecido por ser um jogador de força capaz de sustentar a marcação dos adversários, Paquetá teve um atraso no desenvolvimento físico que quase custou sua carreira.
“Houve um tempo que ele não crescia, não desenvolvia de jeito nenhum. Foi do infantil para o juvenil. E nesse momento o Flamengo o afastou um pouquinho. Fomos chamados para conversar e nos falaram: tecnicamente ele é acima da média, mas não maturou, não tem força. Então foi o momento em que o Lucas sofreu mais”, falou a mãe de Paquetá ao Glolo Esporte.

Depois de superar a distância e as questões físicas, o meia se firmou como uma das promessas da base rubro-negra. Em 2016, foi titular absoluto e um dos destaques no título da Copa São Paulo de Futebol Júnior. No final do ano, estreou pelos profissionais e fez duas partidas, porém, foi em 2017 que se estabilizou.
Marcou o primeiro gol na goleada contra o Madureira, pelo Campeonato Carioca. E se firmou na equipe que seria campeã carioca, mas vice-campeã da Copa do Brasil e da Sul-Americana.
Em 2018 virou o destaque do time que terminou em segundo lugar no Campeonato Brasileiro e já atraia olhares do futebol europeu. Em outubro, assinou contrato com o Milan, onde se apresentaria em janeiro do ano seguinte.
Milan: expectativa, frustração e aprendizado
A chegada ao Milan, custando 35 milhões de euros, foi cercada de expectativas. Em um time que estava longe dos seus áureos tempos, não teve sequer tempo de adaptação. Com o campeonato italiano em andamento, fez 17 jogos, sendo 16 como titular.
O início teve bons sinais, mas a passagem nunca engrenou. O Milan vivia instabilidade técnica e institucional, com mudanças de treinador e um ambiente pouco favorável para um jogador ainda em formação.
Não foi raro vê-lo jogar fora de sua posição habitual. Sem engrenar, perdeu espaço na temporada seguinte, disputando apenas 27 jogos, sem marcar nenhum gol e colaborando com uma assistência. Pouco para quem custou tanto aos cofres do clube.
Durante a temporada 2019-2020, foi mais vezes reserva que titular e viu a minutagem diminuir consideravelmente. A passagem por Milão foi de grande decepção para o Milan, mas também para o jogador, que ainda assim tirou coisas positivas dos tempos de rossonero.
“Foi um clube que me ajudou muito a viver novas experiências, porque eu era um moleque quando saí do Flamengo e fui para um clube novo, com expectativas e com uma pressão diferente. E hoje aprendi a trabalhar diferente, me comportar diferente, chegar mais cedo, fazer meus treinamentos à parte, descansar, me alimentar. Vi o que eu precisava para estar em um nível de Europa. Hoje, graças ao Milan, eu me tornei um jogador melhor, um ser humano melhor, então sou muito grato ao Milan também”, disse em exclusiva à ESPN, e 2022.

Lyon: retorno à velha forma e parceria brasileira
Desvalorizado pela passagem no Milan, o meia rumou para o futebol francês querendo reencontrar sua melhor forma. O Lyon pagou 20 milhões de euros pelo jogador, que encontrou no clube um contexto mais favorável.
A adaptação, facilitada pelo atual companheiro de Seleção Bruno Guimarães, foi rápida. Tanto que atingiu número que sequer havia chegado perto nos tempos de Itália. Foram 34 jogos, 10 gols e 7 assistências. Paquetá recuperou protagonismo e passou a ser visto novamente como um dos principais meio-campistas brasileiros atuando na Europa.
Veio a nova temporada e, com ela, a consolidação em um dos principais pilares do time, especialmente na parte técnica. Em 2021-2022 foram 44 jogos, 11 gols e novamente 7 assistências.
Nesse período, já tinha caído nas graças da torcida e teve o nome cantado em uma partida, contra o Troyes, quando marcou um dos gols na vitória por 3×1.
O bom momento voltou a chamar atenção de outros clubes, e Paquetá se despediu da França com destino à Inglaterra.

West Ham: título europeu, sonho do City e o escândalo das apostas
Um total de 61 milhões de euros. Essa foi a quantia que o West Ham desembolsou por Paquetá, o transformando na contratação mais cara da história do clube. Em Londres e no futebol inglês, encontraria o cenário perfeito para desenvolver um jogador com o perfil dele: técnico, mas ao mesmo tempo de muita força.
A primeira temporada teve um marco histórico. Em 2023, o West Ham conquistou a Conference League, primeiro título oficial do clube em quase 40 anos. Paquetá foi peça importante da campanha e mais ainda na final: foi dele a assistência para o gol do título, marcado por Jared Bowen, aos 44 minutos do segundo tempo.
O bom desempenho no ano de estreia em solo inglês foi o suficiente para o meia atrair interesse de um dos gigantes do futebol local. O Manchester City chegou a fazer uma oferta de 80 milhões de euros, mas a transferência acabou não acontecendo. Em meio às negociações, surgiu a investigação da Federação Inglesa que acusava o jogador de tomar cartões deliberadamente para influenciar no mercado de apostas.
Com esse pano de fundo e o risco de ser banido do futebol, o aspecto emocional passou a pesar. Nessa temporada, ele ainda teve bons números e ajudou o West Ham a terminar no meio da tabela.

Na seguinte, a pressão foi ainda maior. No final da temporada, com o time já livre da zona de rebaixamento mas sem o desfecho do caso, Paquetá chegou a chorar em campo após ser punido com um cartão amarelo. Após o jogo, o técnico Graham Potter falou em “frustração pela temporada”.
Dois meses depois, em julho de 2025, uma comissão independente absolveu o brasileiro das acusações principais de manipulação. O relatório de 314 páginas da comissão foi duro com a FA, apontando falhas no caso e ausência de avaliação independente dos dados de apostas.
Mesmo absolvido, o desgaste ficou. Com o clube, com o país, com tudo que envolvia o futebol na Inglaterra. A relação já não era a mesma. Em 2025, sem que a informação vazasse e logo após a absolvição, o Flamengo já havia procurado por ele. Em janeiro de 2026, a vontade de voltar falou mais alto e Paquetá fez as malas para vir ao Brasil
Flamengo: de volta para casa
O jogador mais caro da história do Flamengo e do futebol brasileiro. 42 milhões de euros, valor totalmente impensável na época em que Paquetá virou profissional no rubro-negro.
O retorno não foi apenas uma decisão esportiva. Foi também uma tentativa de reconstrução pessoal. Logo na chegada isso ficou claro. “Talvez o Flamengo não precisasse de mim, mas eu precisava do Flamengo”, foi a frase dita pelo meia à FLA TV
A estreia foi antes mesmo da apresentação oficial. Ele jogou a Supercopa do Brasil contra o Corinthians e acabou perdendo um gol claro quando o jogo estava 1×0 para o alvinegro.
O começo não foi dos melhores. Tratado como um jogador versátil, Paquetá foi atuando em diversas posições no time de Filipe Luís, que também não vivia um bom momento. Com a chegada de Leonardo Jardim, passou a atuar mais no meio-campo, onde fica mais à vontade.
O mau começo impactou na reta final de preparação para a Copa do Mundo. Nos amistosos contra França e Croácia, os últimos antes da convocação, ele ficou de fora, gerando dúvidas sobre sua ida ao Mundial.
Mas a retomada do bom desempenho e uma ótima sequência de jogos carimbou a vaga na segunda Copa do Mundo do jogador.

Seleção Brasileira: a Copa como reconstrução definitiva
A história de Paquetá com a Amarelinha já tem quase 10 anos. A primeira convocação foi em 2018, com Tite, logo após a Copa do Mundo da Rússia. De lá para cá, foram mais de 60 jogos, com 13 gols e 8 assistências.
Na Copa de 2022, atuou em quatro partidas, mas teve participação discreta. Nem de longe é unanimidade, mas esteve presente com praticamente todos os treinadores que passaram no comando desde a saída de Tite.
Com Ancelotti não foi diferente. Pelo sistema adotado inicialmente, perdeu a titularidade. Mas, ao que tudo indica, recuperou a vaga nos amistosos contra Panamá e Egito. A dobradinha com o antigo companheiro de Lyon funcionou e rendeu elogios do camisa 8.
“Acho que na nossa dinâmica, ter um jogador a mais no meio, principalmente nesse último jogo, foi muito interessante, acho que a gente teve muito mais dinâmicas de um-dois, de tabela. Tivemos muitas chances, principalmente no primeiro tempo, pra marcar mais gols e acabamos pecando um pouco nas finalizações”, analisou em entrevista coletiva após o amistoso contra os africanos.
Inocentado, mais leve, jogando bem no Flamengo e reconquistando espaço no time titular às vésperas da estreia. Não é exagero dizer que, comparado aos últimos dois anos e meio, Paquetá chega ao Mundial em um bom momento. A dúvida é se, como na carreira, será uma Copa do Mundo de altos e baixos ou mais regular.





