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Matheus Cunha: um desconhecido no Brasil que alcançou o degrau mais alto

Leandro Lainetti por Leandro Lainetti
30 de maio de 2026
no Internacional
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Matheus Cunha participa de coletiva de imprensa antes da Copa do Mundo 2026. Foto: Mauro Pimentel

A primeira convocação veio acompanhada de uma interrogação. Quem? Matheus Cunha? Para o torcedor que não assiste futebol europeu com tanta frequência, aquele era um nome desconhecido. 

Antes de virar titular da Seleção Brasileira e chegar ao Manchester United, o atacante fez um percurso longe dos holofotes. Saiu do Brasil jovem, ainda na base do Coritiba, sem receber a mesma atenção que jogadores das categorias de base dos clubes mais tradicionais do país.

Nascido em João Pessoa, na Paraíba, Matheus cresceu jogando pelada nos campos dos bairros em que morou, Torre e Bancários. Chegou ao Coxa com 14 anos e nunca estreou pelo profissional. 

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Se o sonho de todo moleque brasileiro é atuar nos grandes clubes do futebol mundial, para Cunha não era diferente. Mas, talvez, ele tenha percebido cedo demais que nem sempre o caminho para chegar lá é o mesmo.

Em 2017, com apenas 18 anos, o atacante acertou com o Sion, da Suíça, que pagou aproximadamente dois milhões de euros ao clube paranaense. Era um movimento pouco badalado para os padrões brasileiros. Fora do radar dos gigantes do Velho Continente, mas construindo uma trajetória que o ajudou a evoluir como jogador e como homem. 

Matheus Cunha na base do Coritiba. Foto: Coritiba Foot Ball Club

Sion: bons números e o rápido adeus

A passagem pelo futebol suíço foi curta, mas fundamental.

No Sion, Matheus Cunha começou a chamar atenção pela combinação rara entre mobilidade, força física e capacidade técnica. Diferentemente do centroavante tradicional de área, já mostrava características de atacante moderno: flutuava pelo setor ofensivo, atacava espaços e participava da construção das jogadas.

A primeira e única temporada terminou com 33 jogos e dez gols, números que despertaram interesse de ligas mais competitivas. Um ano após chegar, o RB Leipzig acertou sua contratação por 15 milhões de euros.

Cunha foi artilheiro no futebol suíço. Foto: Reprodução

RB Leipzig: intensidade alemã e o impacto da escola Red Bull

A ida para o RB Leipzig representou um salto importante na carreira.

O clube alemão vivia crescimento acelerado dentro do projeto esportivo da Red Bull, conhecido pela intensidade física, pressão alta e desenvolvimento de jovens jogadores. Para Cunha, com 19 anos, era o ambiente ideal para evoluir.

Na Alemanha, refinou principalmente o entendimento tático sem bola. Aprendeu a pressionar defensores, atuar em diferentes funções ofensivas e ganhar intensidade física, que ele destacou como principal diferença entre o futebol suíço e alemão. 

“A diferença que sinto na Bundesliga é na intensidade de jogo. Você precisa estar bem fisicamente sempre e ligado os 90 minutos. Tenho certeza de que vou evoluir muito como jogador na Alemanha”, disse, na época, em entrevista ao site da própria Red Bull.

No primeiro ano foi bem aproveitado: 39 jogos, nove gols e três assistências, ainda que tenha sido reserva a maior parte do tempo. Na temporada 19-20, não recebeu as mesmas chances. Entrou em campo apenas 13 vezes e não participou de nenhum gol. A solução foi mudar de ares e procurar mais oportunidades para jogar. 

Matheus Cunha em sua passagem pelo RB Leipzig, em 2019. Foto: Jan Woitas

Hertha Berlin: protagonismo individual em meio ao caos

No Hertha, Matheus Cunha talvez tenha vivido o primeiro momento real de protagonismo da carreira europeia. Ele chegou no meio da temporada 19-20, fez 11 partidas e marcou cinco vezes. 

Mas o time da capital já atravessava um momento complicado, quase sempre brigando contra o rebaixamento. Mesmo nesse cenário instável, o brasileiro conseguiu se destacar individualmente. Na temporada 20-21, foram 28 jogos, com oito gols e sete assistências. Nesse período, recebeu a primeira convocação para a Seleção Brasileira.

Em setembro de 2020, após lesão de Gabriel Jesus, o atacante foi convocado por Tite durante o ciclo de preparação para a Copa do Mundo do Catar, que seria dois anos depois.  

No período em Herta, passou a atuar com mais liberdade ofensiva e mostrou uma característica que acompanharia toda sua carreira: capacidade de decidir jogos mesmo em equipes limitadas tecnicamente. Também ganhou respeito pela personalidade competitiva, algo que veio desde a infância, como ele lembrou em entrevista ao ge.com.

“Eu morava na Torre, e a Praça São Gonçalo foi um dos meus primeiros passos de jogar com pessoas diferentes. É o momento em que a competitividade começa a se manifestar em você”. 

A constante luta dentro de campo e as boas atuações também renderam vaga nos Jogos Olímpicos de Tóquio, disputados em 2021, em razão da pandemia da Covid-19. Terminou com a medalha de ouro no peito, fazendo gol na final e sendo um dos destaques do Brasil. A partir dali, a carreira ganharia novos rumos, cada vez mais altos. 

Cunha comemora gol pelo Hertha Berlim contra o Colônia, na Bundesliga 2021. Foto: Uwe Kraft

Atlético de Madrid: Simeone, disciplina e longe da titularidade

Em agosto de 2021, Matheus Cunha desembarcou na capital espanhola. Não para ser parceiro de Vini Junior no Real Madrid, pelo contrário, estaria do outro lado da rivalidade. Contratado pelo Atlético de Diego Simeone, enfrentaria o maior desafio da carreira até então.

Poucos treinadores cobram tanto disciplina tática e intensidade sem bola quanto Simeone. Atacantes precisam pressionar, recompor e competir fisicamente o tempo inteiro. Não basta talento ofensivo. É até comum que jogadores talentosos, com mais refino técnico, acabem por sucumbir ao estilo do argentino. 

Para Matheus, foi uma oportunidade de amadurecimento e também de estar mais em evidência, atuando num grande clube, liga e nos maiores palcos do futebol europeu. 

Entretanto, uma situação se repetiu: assim como em Leipzig, Cunha teve poucas oportunidades como titular e a maioria dos seus 37 jogos no primeiro ano em Madrid, com sete gols e seis assistências, foi saindo do banco e jogando poucos minutos.

Mesmo nesse cenário, evoluiu. Passou a atuar como segundo atacante, centroavante móvel e até aberto pelos lados em alguns momentos. Chegou a ser elogiado pelo treinador argentino alguns meses antes da Copa do Mundo de 2022 e, mesmo assim, seguiu sem ter muitas oportunidades. 

Assim, em janeiro de 2023, Matheus Cunha se despediu de Madrid rumo à Premier League. 

Matheus Cunha ao lado de Griezmann em sua passagem pelo Atlético de Madrid. Foto: David S. Bustamante / Soccrates

Wolverhampton: a explosão definitiva na Premier League

A transferência para o Wolverhampton mudou completamente o patamar da carreira de Matheus Cunha. O pai do jogador, Carmelo, viu a transferência com bons olhos e não poupou críticas ao técnico Diego Simeone.

Na Inglaterra, Cunha voltou a se deparar com situações que já estava habituado. Uma cidade menor, como Leipzig, e um clube que brigava na parte de baixo da tabela. 

Como chegou com a temporada em andamento, os primeiros meses foram de adaptação. Terminou com 20 jogos e dois gols. Mas num time mais talhado para o contra-ataque e numa liga tão intensa e física como a Premier League, encontrou o contexto ideal para potencializar suas características.

O Wolves também enxergou dessa forma e contratou o atacante em definitivo para a nova temporada, pagando 50 milhões de euros. A partir dali, Cunha finalmente atingiu regularidade em alto nível, mostrando que só precisava de sequência como titular.

Passou a produzir gols, assistências e atuações decisivas de maneira consistente. Mais do que os números, chamou atenção pela capacidade de assumir responsabilidade técnica em um campeonato extremamente competitivo. Terminou a primeira temporada completa pelo clube inglês com 36 jogos, 14 gols e oito assistências. 

No ano seguinte, números ainda melhores (36 jogos, 17 gols e seis assistências) e um novo jeito de jogar. Com Vitor Pereira, Matheus assumiu a função de um camisa 10 e virou o cérebro do time. 

O sucesso na liga chamou atenção de outros clubes e o atacante foi sondado por gigantes do futebol inglês. Apesar do desejo de disputar grandes competições e almejar brigar por títulos, preferiu esperar o fim da temporada para mudar de ares. 

“Sem dúvidas você imagina jogar as maiores competições, nos maiores clubes do mundo. Isso eu almejo e não quero esconder. Mas que eu saia depois de ter deixado um legado legal, de ter feito algo importante para onde fui tão bem recebido. Como se tivesse um sentimento muito forte de gratidão interna”, disse em declaração ao “Encontros Premier League”, produção da Disney+.

Ídolo, Matheus Cunha fez história no Wolverhampton. Foto: Lee Parker

Manchester United: o maior palco da carreira

A transferência para o Manchester United representa o ponto mais alto da trajetória até aqui, em termos financeiros e de projeção. Cunha custou aos Red Devils 74 milhões de euros, valor alto mesmo para o padrão da Premier League.

Depois de construir a carreira quase toda fora do radar e em equipes de menor expressão, ele chegou a um dos clubes mais midiáticos do planeta como jogador consolidado no país e já titular da Seleção Brasileira.

Mas no lado vermelho de Manchester, Matheus também encontrou o caos. Nas últimas temporadas o United vive em uma espécie de montanha-russa, venceu títulos de menor expressão, ficou dois anos fora da Champions, um deles na parte de baixo da tabela da liga e conviveu com muitas trocas de treinador. 

A primeira temporada chegou ao fim com retorno à Champions League, a melhor posição (3°) em muitos anos e titularidade absoluta. Apesar dos modestos números, (10 gols e 4 assistências em 33 jogos), Cunha teve papel de destaque no time. 

Mais maduro e pronto, também é titular da Seleção Brasileira com Carlo Ancelotti. 

Matheus Cunha em sua primeira temporada pelo Manchester United. Foto: Ash Donelon / Manchester United

Seleção Brasileira: de desconhecido do torcedor a peça-chave do sistema

Durante muito tempo, Matheus Cunha foi visto como um atacante talentoso, mas que não conseguia explorar todo seu potencial, gerando dúvidas se realmente seria um diferencial para suas equipes. A Premier League respondeu essa pergunta.

Com atuações cada vez mais consistentes no futebol inglês, especialmente no Manchester United, ganhou espaço definitivo na Seleção Brasileira. 

Diferentemente de atacantes mais fixos, passou a ser valorizado justamente pela versatilidade: consegue jogar centralizado, aberto, como segundo atacante ou até recuando para participar da criação, como tem sido utilizado no 4-2-4 do treinador italiano. 

A intensidade sem bola para recompor a linha defensiva e a mobilidade ofensiva são atributos valiosos para o futebol moderno. Se passou quase toda a carreira à sombra dos holofotes e desconhecido do grande público, agora Matheus Cunha tem outro status.

É peça-chave para o funcionamento do esquema que busca explorar atacantes rápidos, habilidosos, mas que saibam fazer o trabalho sujo. Se aliar tudo isso a um faro de gol mais aguçado, tem tudo para brilhar na Copa do Mundo de 2026.

Matheus Cunha ao lado de Vinicius Junior na Seleção Brasileira. Foto: Nelson Almeira
Tags: Carlo AncelottiConvocação SeleçãoCopa do Mundo 2026destaqueMatheus CunhaSeleção Brasileira

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