
Apenas nove dos 20 clubes da Série A explicaram publicamente como utilizam e fiscalizam seus cartões corporativos. Atlético-MG, Corinthians, Coritiba, Internacional, Palmeiras, Santos, São Paulo, Vasco e Vitória responderam a um levantamento realizado pelo GLOBO ESPORTE. As outras 11 equipes não apresentaram informações à reportagem.
A ausência de resposta não significa necessariamente que esses clubes não possuam normas internas. O número, porém, evidencia a falta de transparência sobre uma ferramenta que voltou ao centro do debate após denúncias envolvendo despesas pessoais pagas com recursos de Corinthians e São Paulo.
Os cartões corporativos são utilizados para gastos relacionados à operação dos clubes, como alimentação, transporte, hospedagem, registros de atletas e contratação de sistemas digitais. O problema, segundo especialistas ouvidos no levantamento, não está na existência do cartão, mas na falta de limites, regras claras e fiscalização independente.
Veja os nove clubes que responderam
Os clubes que detalharam suas práticas foram:

Entre os nove participantes, somente o Internacional confirmou que o presidente utiliza um cartão corporativo. Alessandro Barcellos pode usá-lo em despesas institucionais com alimentação, transporte, hospedagem e situações emergenciais. O clube afirma que todas as compras precisam ser justificadas.
Nos demais casos, os cartões ficam principalmente com funcionários de áreas administrativas e operacionais. Diretores, gerentes, supervisores e profissionais ligados ao futebol aparecem entre os responsáveis mais comuns.
Presidentes de Corinthians e São Paulo abriram mão do cartão
Osmar Stabile, presidente do Corinthians, e Harry Massis, do São Paulo, optaram por não possuir cartões corporativos. A decisão ocorreu após as crises políticas provocadas por despesas atribuídas às administrações anteriores.
No Corinthians, os cartões permanecem com setores responsáveis por registros de jogadores, logística e compras. A fiscalização é realizada pelos gerentes das áreas e pelo departamento financeiro. Casos considerados irregulares podem ser analisados pelos conselhos Deliberativo, Fiscal e de Ética.
No São Paulo, os cartões ficam com o diretor financeiro e o executivo de futebol. As despesas são verificadas pelo financeiro e pela controladoria, com a apresentação das faturas e dos respectivos comprovantes.
O clube criou uma política específica para essa ferramenta somente em dezembro de 2025. A nova regra proíbe despesas particulares, mesmo quando o responsável pretende devolver posteriormente o dinheiro.
Palmeiras exige autorização antes das compras
O Palmeiras informou que nenhum dirigente estatutário ou profissional possui acesso a cartão corporativo. Os dois cartões existentes ficam sob a responsabilidade de um funcionário do futebol profissional e outro do departamento financeiro.
O uso precisa ser autorizado pelo gestor do departamento e pelo diretor de gestão. Os comprovantes são inseridos em um sistema integrado, analisados pelas áreas responsáveis e verificados periodicamente pela auditoria interna.
Os cartões podem ser utilizados em viagens da equipe, hospedagem, alimentação, sistemas de análise de desempenho, aplicativos, canais esportivos e pagamentos pontuais a fornecedores que não aceitam outra modalidade.
Valores sem comprovação devem ser devolvidos ou descontados do salário do funcionário. Dependendo da gravidade, o responsável também pode receber advertência, suspensão ou ser demitido.
Santos envia faturas ao Conselho Fiscal
No Santos, os cartões ficam com o gerente financeiro e o coordenador do futebol profissional. Um é utilizado principalmente para ferramentas digitais e registros urgentes de jogadores, enquanto o outro atende a despesas logísticas em partidas disputadas fora de casa.
O processo conta com a participação do departamento de compliance. Além da prestação detalhada, as faturas são encaminhadas trimestralmente ao Conselho Fiscal.
Os funcionários responsáveis também assinam um termo de compromisso. O uso irregular pode gerar punições previstas na política interna e no código de conduta do clube.
Internacional adota aprovação em diferentes etapas
O Internacional apresentou um dos procedimentos mais detalhados entre os clubes consultados.
Depois de cada utilização, o responsável precisa produzir um relatório, apresentar a nota fiscal e justificar a compra. O material passa pelos aprovadores do departamento e pela análise dos setores financeiro e contábil.
A despesa pode ser aprovada, rejeitada ou devolvida ao responsável para novos esclarecimentos. Os documentos são arquivados para auditorias e controles posteriores.
Quando uma compra não é aprovada, o valor deve ser ressarcido. O uso inadequado também pode provocar sanções estatutárias ou trabalhistas.
Coritiba praticamente eliminou os cartões
O Coritiba adotou a mudança mais radical. Em 2025, o clube identificou problemas no controle das compras realizadas por meio de 25 cartões ativos distribuídos entre funcionários de diferentes departamentos. A análise encontrou até despesas com roupas.
Como resposta, o clube contratou uma plataforma de gestão de despesas e praticamente aboliu o modelo anterior.
Nas compras pequenas, o funcionário utiliza recursos próprios e solicita o reembolso digitalmente. Quando o valor é maior, o clube transfere previamente a quantia estimada para uma conta controlada, utilizada por meio de Pix. Depois, o colaborador precisa apresentar os comprovantes.
O único cartão mantido pelo Coritiba está com o departamento financeiro e serve para contratar assinaturas ou serviços que não permitem outro meio de pagamento.
Cartões pagam desde software até refeições no vestiário
Os clubes afirmam que a ferramenta é necessária para atender situações práticas que nem sempre podem ser resolvidas por transferências bancárias.
Entre as despesas permitidas aparecem:
- alimentação e hospedagem em viagens;
- transporte, táxis e aluguel de veículos;
- refeições entregues aos jogadores após partidas;
- registros emergenciais de atletas;
- mensalidades de sistemas e aplicativos;
- ferramentas de análise de desempenho;
- gastos médicos emergenciais;
- compras operacionais para diferentes departamentos.
Nenhum dos nove clubes declarou permitir despesas pessoais. A diferença está na maneira como cada um define limites, autoriza as compras, recebe os comprovantes e pune eventuais irregularidades.
Regras existem, mas não eliminam os riscos
A existência de departamentos de compliance, conselhos fiscais e manuais internos não garante que as normas sejam respeitadas.
Corinthians e São Paulo, por exemplo, já possuíam estruturas de fiscalização quando ocorreram os episódios que atingiram suas administrações. Para os especialistas, um dos problemas é a influência política sobre os setores que deveriam controlar os dirigentes.
Em clubes associativos, profissionais responsáveis pela fiscalização podem ser indicados pelos mesmos grupos políticos que comandam a instituição. Essa proximidade reduz a independência necessária para questionar despesas e rejeitar pagamentos.
A recomendação é que cada compra passe por dois ou três níveis de aprovação. Dessa forma, a decisão não fica concentrada em apenas uma pessoa e a responsabilidade é compartilhada entre diferentes setores.
Valores menores não justificam falta de fiscalização
As despesas com cartões representam uma pequena parte do orçamento de um grande clube. Enquanto folhas salariais, transferências e dívidas movimentam dezenas de milhões de reais, as faturas corporativas costumam ficar na casa dos milhares.
Esse contraste faz com que compras individuais recebam menos atenção das áreas financeiras. Para especialistas em governança, porém, o valor reduzido não pode servir como justificativa.
Além da perda financeira, o uso particular de recursos do clube provoca desgaste institucional, crises políticas e dúvidas sobre a capacidade da administração de controlar despesas maiores.
CBF recomenda programas de integridade
O Sistema de Sustentabilidade Financeira da CBF prevê medidas para modernizar a administração dos clubes e aumentar a transparência. O regulamento recomenda a criação de programas de integridade com códigos de conduta, controles internos e canais de denúncia.
A implementação do sistema começou em 2026 e passou a ser acompanhada pela Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol. A estrutura pode aplicar sanções em casos de descumprimento das regras financeiras, mas a política específica de utilização dos cartões continua sob responsabilidade de cada clube.
Por isso, ainda existem grandes diferenças entre as equipes. Algumas adotam auditorias internas, limites individuais e aprovação prévia. Outras possuem controles menos detalhados ou sequer divulgam publicamente como a ferramenta é utilizada.
O dado mais preocupante do levantamento não é apenas a diversidade dos procedimentos. Dos 20 clubes que disputam a principal competição do país, 11 não explicaram como controlam uma forma de pagamento diretamente ligada aos seus recursos.




