UEFA cogita boicote após proposta da FIFA de repassar valores em troca de apoio na criação de empresa

Federações europeias discutem reação extrema ao plano de Gianni Infantino; proposta prevê pagamento adicional para as associações que aderirem à criação de empresa com investidores privados

A crise entre FIFA e UEFA ganhou um novo capítulo. Federações europeias começaram a discutir a possibilidade de boicotar futuras Copas do Mundo caso Gianni Infantino avance com o plano de vender uma participação nos negócios comerciais das principais competições da entidade.

A reação aumentou depois que a FIFA enviou uma carta às 211 associações filiadas detalhando os valores que poderiam receber caso apoiassem a criação da FIFA Forward Enterprise, nova subsidiária avaliada inicialmente em US$ 20 bilhões.

O projeto prevê que cada federação tenha acesso a um pagamento adicional de até US$ 20 milhões a partir de janeiro de 2027, desde que participe do programa relacionado à venda de uma fatia da nova empresa para investidores privados. A FIFA estabeleceu o dia 19 de setembro como prazo para receber o apoio das associações.

Embora algumas manchetes tratem o valor como uma oferta por “voto favorável”, a FIFA apresenta o dinheiro como financiamento opcional para o desenvolvimento do futebol. A UEFA, por outro lado, entende que a retirada da oferta em caso de rejeição funciona como uma forma de pressão financeira.

Federações poderiam receber até US$ 40 milhões

A proposta da FIFA possui duas linhas principais de financiamento.

Pelo programa regular de desenvolvimento, cada associação passaria a ter acesso a US$ 20 milhões no ciclo iniciado em 2027. Atualmente, a previsão é de US$ 8 milhões por federação.

Além disso, as associações que participarem do projeto da FIFA Forward Enterprise poderiam solicitar outros US$ 20 milhões em pagamento extraordinário. Dessa forma, cada federação teria a possibilidade de receber até US$ 40 milhões no próximo ciclo.

Os recursos poderiam ser utilizados em estádios, centros de treinamento, formação de treinadores, seleções nacionais, categorias de base, futebol feminino e competições locais.

Segundo a carta enviada por Infantino, os valores regulares aumentariam para US$ 22 milhões entre 2031 e 2034 e para US$ 24 milhões no ciclo de 2035 a 2038. Ao longo de três ciclos de Copa do Mundo, uma associação poderia receber até US$ 86 milhões, considerando todos os programas apresentados.

A proposta somente será implementada caso receba o apoio de mais da metade das 211 federações filiadas e seja posteriormente aprovada pelo Conselho da FIFA.

UEFA acusa FIFA de pressionar federações

A UEFA reagiu duramente ao prazo estabelecido por Infantino. Em comunicado, a entidade europeia afirmou que as associações foram colocadas diante da escolha entre apoiar a proposta ou perder o pagamento extraordinário.

— Hoje soubemos do prazo dado pela FIFA para que as associações apoiem suas propostas ou tenham a oferta de pagamento único retirada. Isso diz tudo o que é preciso saber sobre este plano — declarou a UEFA.

A entidade também acusou a FIFA de utilizar o futebol para beneficiar dirigentes e investidores próximos à atual administração. Segundo a UEFA, existe uma oposição crescente ao projeto entre federações, clubes, ligas e outros representantes do esporte.

O conflito não envolve apenas os valores oferecidos. As confederações europeia, asiática e da América do Norte também criticaram a falta de consulta durante a elaboração da proposta.

A Concacaf afirmou que conheceu os detalhes inicialmente pela imprensa. A Confederação Asiática de Futebol declarou que um projeto com consequências comerciais tão amplas deveria ter sido apresentado e debatido previamente com as entidades regionais.

Europeus discutem boicote à Copa do Mundo

Diante da pressão, associações ligadas à UEFA começaram a discutir uma possível ameaça de boicote às competições da FIFA.

Segundo a Sky News, representantes europeus consideram utilizar a ausência de suas seleções como último recurso para impedir o avanço da FIFA Forward Enterprise. A UEFA convocou reuniões virtuais de emergência com suas 55 associações para analisar o assunto.

Até o momento, não existe uma decisão oficial de boicote. A medida é tratada como uma possibilidade em discussão e dependeria da adesão de algumas das principais federações do continente.

A primeira competição que poderia ser afetada seria a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil. Uma eventual retirada de seleções europeias teria grande impacto esportivo e comercial, já que Espanha e outras potências do continente estão entre as principais equipes da modalidade.

A Europa também possui força política devido à importância de suas seleções para a Copa do Mundo masculina. Apesar disso, a UEFA controla apenas 55 dos 211 votos da FIFA e não conseguiria impedir sozinha a aprovação da proposta.

O que é a FIFA Forward Enterprise?

A FIFA Forward Enterprise seria uma empresa responsável pelas operações comerciais e pela organização dos eventos da FIFA.

A subsidiária administraria receitas relacionadas a direitos de transmissão, patrocínios, ingressos, licenciamento e outras áreas ligadas à Copa do Mundo, ao Mundial de Clubes e aos demais torneios da entidade.

A estimativa inicial aponta para uma avaliação de US$ 20 bilhões. A FIFA pretende vender até 20% da companhia e arrecadar aproximadamente US$ 4,2 bilhões com investidores externos.

A entidade afirma que manteria o controle da empresa e a autoridade exclusiva sobre regras, competições, calendário internacional e decisões esportivas. Os investidores teriam apenas uma participação minoritária e não exerceriam funções operacionais.

O grupo de investidores deverá ser liderado pela Thrive Eternal, plataforma criada pela empresa de investimentos Thrive Capital, de Joshua Kushner. A FIFA também trabalha com o banco JPMorgan na estruturação do negócio.

FIFA afirma que participação é voluntária

Após as críticas, Gianni Infantino declarou que o projeto representa apenas uma proposta e não uma obrigação.

O presidente da FIFA classificou o processo como uma consulta democrática e afirmou que cada associação poderá decidir se deseja participar do novo mecanismo.

A FIFA também defende que a entrada de capital privado permitiria distribuir mais recursos entre países que possuem menor capacidade financeira.

Segundo Infantino, o objetivo é aproveitar o potencial comercial das grandes competições para financiar infraestrutura, futebol de base e seleções nacionais em diferentes partes do mundo.

A UEFA questiona esse argumento. Para a entidade europeia, a Copa do Mundo não pertence à FIFA e não deveria ser transformada em um ativo comercial disponível para investidores.

Relação entre FIFA e UEFA se deteriora

A discussão sobre a nova empresa amplia uma disputa política que já vinha se intensificando.

Aleksander Ceferin, presidente da UEFA, não compareceu à final da Copa do Mundo de 2026 depois de divergências relacionadas a decisões disciplinares, arbitragem e organização da competição.

UEFA e FIFA também entraram em conflito anteriormente sobre a tentativa de realizar a Copa do Mundo a cada dois anos. Em 2021, a ameaça de que países europeus deixariam de disputar o torneio contribuiu para o abandono do projeto.

Agora, a possibilidade de um novo boicote reaparece em uma disputa envolvendo bilhões de dólares e o controle comercial das principais competições do futebol.

O prazo dado pela FIFA termina em 19 de setembro. Até lá, as associações precisarão decidir se apoiam a criação da empresa e os novos programas de financiamento.

A UEFA tenta construir uma frente de oposição, enquanto Infantino busca votos principalmente entre federações que dependem dos repasses da FIFA. O resultado poderá definir não apenas o futuro da nova subsidiária, mas também a relação política entre as principais forças do futebol mundial.

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