
A Copa do Mundo de 2026 será marcada pelo número recorde de seleções e pelo desafio inédito de Engenharia e Biotecnologia. Com a proibição do uso de piso sintético nos estádios dos Estados Unidos, México e Canadá, a Fifa determinou uma operação complexa de padronização biológica dos gramados, todos nas dimensões oficiais de 105m x 68m. O sucesso dessa empreitada depende diretamente da Agronomia, ciência essencial para o desenvolvimento de gramas de alta performance, conformidade regulatória e manejo de solos e microclimas.
Diante de condições climáticas extremas, desde o calor intenso de Monterrey e Miami até as baixas temperaturas em regiões do Canadá e dos Estados Unidos, os estádios foram divididos agronomicamente: seis utilizarão variedades de grama de clima quente e dez adotarão espécies de clima frio. Nos locais quentes, predominam variedades de grama Bermuda (Cynodon spp.), como Tahoma 31 e Northbridge, propagadas por mudas e estolões. Já nas regiões frias, o plantio ocorre por semeadura direta, com espécies como a Kentucky bluegrass (Poa pratensis), que oferece alta densidade e resistência ao tráfego intenso.
A engenheira agrônoma Gisele Herbst, diretora técnica do Crea-SP, destaca:
“Quando olhamos para um gramado de alto rendimento, seja em um estádio de Copa do Mundo ou em um complexo esportivo urbano, estamos vendo o ápice da interseção entre a Engenharia e a Agronomia. A implantação e o manejo dessas superfícies exigem o rigor técnico da ciência e da legislação, pois são projetos complexos que envolvem física do solo avançada, melhoramento genético, nutrição de plantas, manejo fitossanitário e Engenharia hidráulica de irrigação e drenagem.”
O maior desafio está nos oito estádios que tradicionalmente utilizam grama sintética para jogos da NFL ou possuem tetos retráteis, como Vancouver, Los Angeles e Filadélfia. Nessas arenas, a solução encontrada foi o método “Sod on Plastic“, em que o gramado é cultivado sobre lonas plásticas com base de areia. Esse sistema permite que o gramado seja colhido, transportado e instalado intacto nos estádios.
O engenheiro agrônomo Breno Couto explica:
“O Renasem (Registro Nacional de Sementes e Mudas), gerido pelo Ministério da Agricultura no Brasil, funciona como o ‘RG’ e o ‘atestado de saúde’ da planta: ele assegura que o produtor é legalizado, que o lote está limpo, saudável e livre de pragas ou contaminações no viveiro. Já a certificação genética internacional é como um ‘teste de DNA’ altamente rigoroso. Ela audita toda a árvore genealógica daquela grama, por meio de vistorias frequentes, para provar que a planta não passou por nenhuma mutação ou alteração ao longo das gerações. É essa pureza biológica idêntica que garante que a bola vai quicar e rolar exatamente da mesma forma, seja no calor do México ou no clima temperado de Vancouver.”
No Brasil, a produção de grama ocupa cerca de 25 mil hectares, mas ainda há poucas variedades esportivas desenvolvidas localmente. A engenheira agrônoma Livia Sancinetti, da Associação Grama Legal, pontua:
“O Brasil possui poucas variedades próprias registradas e desenvolvidas localmente com foco puramente esportivo, o que restringe as opções dos profissionais. A Engenharia Agronômica nacional acaba atuando fortemente na adaptação e no manejo de cultivares importadas.”
Outro fator crítico será o desgaste mecânico acumulado, já que alguns estádios receberão até nove partidas em poucos dias. Breno Couto detalha:
“Aguentar a pisada de 22 atletas profissionais por até nove jogos em um mesmo estádio é um desafio extremo de fadiga vegetal. O tratamento de um gramado desse nível é de altíssima precisão. Usamos iluminação artificial com painéis de LED para garantir a fotossíntese ideal nas áreas sombreadas pelas coberturas das arenas, sistemas de drenagem a vácuo que não apenas sugam a água da chuva, mas também injetam ar diretamente nas raízes para oxigenar o perfil do solo. Além disso, a irrigação automatizada segmentada por setores, baseada no índice de transpiração de cada metro quadrado do campo. Para acelerar a regeneração entre um jogo e outro, o agrônomo precisa dosar milimetricamente bioestimulantes, aminoácidos e fertilizantes.”
Para reforçar áreas de maior desgaste, muitas arenas contarão com gramados híbridos, em que fibras sintéticas são costuradas para ancorar as raízes naturais e evitar a perda de tufos em jogadas intensas.
Essa demanda crescente por profissionais especializados em superfícies esportivas reflete uma tendência global que já influencia o paisagismo corporativo e a gestão ambiental urbana. A presença de engenheiros agrônomos brasileiros em comitês técnicos internacionais e na própria Fifa confirma a relevância mundial da Engenharia nacional. O espetáculo começa muito antes do apito inicial: é desenhado, calculado e cultivado na ciência do solo.
Sobre o Crea-SP – Criada há 92 anos, a autarquia federal é responsável pela fiscalização, controle, orientação e aprimoramento do exercício e das atividades dos profissionais das Engenharias, Agronomia, Geociências, Tecnologia e Design de Interiores. O Crea-SP está presente nos 645 municípios do Estado, conta com cerca de 380 mil profissionais registrados e mais de 110 mil empresas registradas.




