
O futebol europeu tomou sua decisão mais radical até agora no confronto com Gianni Infantino. As 55 federações filiadas à UEFA chegaram a um acordo para boicotar as competições organizadas pela FIFA caso o plano de vender uma participação nos negócios comerciais da Copa do Mundo seja aprovado.
A decisão foi tomada nesta quinta-feira, 30 de julho, durante uma reunião emergencial convocada pela entidade europeia. Segundo o jornal britânico The Independent, houve consenso para retirar seleções e clubes europeus de todos os torneios da FIFA se Infantino mantiver o projeto de abertura ao capital privado.
O boicote, portanto, é condicional. As seleções europeias não estão abandonando imediatamente as competições internacionais. A medida será colocada em prática apenas se a FIFA avançar com a criação da FIFA Forward Enterprise e a venda de parte da companhia para investidores externos.
Uma manifestação oficial da UEFA confirmando os detalhes era aguardada após a reunião. Até a publicação das primeiras informações, o acordo havia sido divulgado por fontes familiarizadas com as discussões.
FIFA pretende vender parte de empresa avaliada em US$ 20 bilhões
Ásia rompe silêncio e aumenta pressão contra plano bilionário da FIFA
Boicote atingiria todas as competições da FIFA
A reação europeia não ficaria limitada à Copa do Mundo masculina.
O acordo prevê a retirada das equipes da UEFA de todas as competições organizadas pela FIFA, incluindo:
- Copa do Mundo masculina;
- Copa do Mundo Feminina;
- Mundial de Clubes;
- torneios mundiais de base;
- Copa do Mundo de Futsal;
- demais competições administradas pela entidade.
A primeira grande competição afetada poderia ser a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil. A possibilidade gera um problema adicional para a UEFA, pois parte das federações demonstra preocupação com o impacto de utilizar o futebol feminino como instrumento de pressão em uma disputa relacionada principalmente aos negócios comerciais do Mundial masculino.
Caso o conflito se prolongue, o boicote também ameaçaria a Copa do Mundo masculina de 2030, organizada principalmente por Espanha, Portugal e Marrocos, com partidas comemorativas na Argentina, no Paraguai e no Uruguai.
Uma Copa sem as seleções europeias perderia campeões mundiais como Espanha, França, Alemanha, Inglaterra e Itália, além de outras forças tradicionais. O impacto esportivo, comercial e televisivo colocaria em risco a viabilidade dos principais torneios da FIFA.
Decisão foi tomada em reunião emergencial
A UEFA convocou suas 55 federações depois que Infantino apresentou o projeto sem consultas prévias às confederações continentais.
A reunião virtual começou na tarde desta quinta-feira. Apesar de algumas associações demonstrarem interesse nos recursos prometidos pela FIFA, o encontro foi marcado por um sentimento de unidade, segundo informações divulgadas pelo The Independent.
O presidente da Federação Tcheca, David Trunda, havia sido uma das poucas vozes europeias a reconhecer possíveis vantagens financeiras na proposta. Mesmo assim, as federações concordaram que seria necessário preparar uma resposta coletiva caso o projeto fosse aprovado.
A ameaça de boicote representa uma mudança importante. Antes da reunião, a medida era tratada apenas como uma das possibilidades em análise. Depois do encontro, passou a ser a resposta acordada para o caso de Infantino prosseguir com a operação.
O que é o plano bilionário de Infantino?
A FIFA pretende criar uma subsidiária chamada FIFA Forward Enterprise, conhecida pela sigla FFE.
A companhia concentraria as principais operações comerciais e administrativas ligadas às competições da entidade. Entre elas estariam direitos de transmissão, patrocínios, licenciamento, venda de ingressos e organização operacional dos torneios.
A nova empresa foi avaliada inicialmente em US$ 20 bilhões. A FIFA pretende vender até 20% da companhia para investidores externos, operação que poderia levantar aproximadamente US$ 4,2 bilhões.
A Thrive Eternal, plataforma de investimentos ligada à Thrive Capital, de Joshua Kushner, aparece como possível líder do grupo investidor. Joshua é irmão de Jared Kushner, genro do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
O banco JPMorgan também participa da estruturação financeira do projeto. A FIFA afirma que manteria o controle majoritário da empresa e continuaria responsável por todas as decisões esportivas e regulatórias.
UEFA acusa FIFA de colocar o futebol à venda
A entidade europeia considera que a criação da empresa ultrapassa os limites aceitáveis da comercialização do esporte.
Em sua primeira manifestação sobre o projeto, a UEFA afirmou que a FIFA atravessou uma linha que nenhuma instituição responsável pela administração do futebol deveria cruzar.
A confederação também declarou que a identidade, a governança e a essência do esporte não podem ser tratadas como ativos disponíveis para venda. Outro ponto criticado foi a ausência de transparência sobre quem lucraria com a operação.
Para a UEFA, a proposta não envolve apenas uma participação econômica em direitos comerciais. A entrada de investidores poderia influenciar a expansão dos torneios, o calendário, o número de partidas e decisões tomadas para aumentar as receitas da empresa.
A FIFA contesta essa interpretação. Infantino afirma que os investidores não teriam qualquer autoridade sobre regras, formatos ou decisões esportivas. O dirigente classificou o projeto como uma proposta voluntária, e não como uma obrigação imposta às federações.
Oferta de recursos aumentou revolta europeia
A tensão aumentou depois que Infantino estabeleceu o dia 19 de setembro como prazo para as 211 federações manifestarem apoio ao projeto.
A proposta prevê que cada associação tenha acesso a até US$ 20 milhões em um pagamento extraordinário relacionado à criação da empresa. O financiamento regular do programa FIFA Forward também subiria para aproximadamente US$ 20 milhões no ciclo entre 2027 e 2030.
Somadas, as duas linhas poderiam oferecer até US$ 40 milhões por federação. Caso o projeto seja rejeitado, os recursos disponíveis no período seriam consideravelmente menores.
A UEFA interpreta a diferença como uma forma de pressão. Federações menores, que dependem do dinheiro distribuído pela FIFA para manter seleções, campeonatos e estruturas de treinamento, teriam um forte incentivo financeiro para apoiar Infantino.
A entidade europeia chegou a acusar a FIFA de utilizar o esporte para enriquecer dirigentes e pessoas próximas à atual administração.
Ásia e Concacaf aumentam isolamento da FIFA
A oposição deixou de estar concentrada na Europa.
A Confederação Asiática de Futebol criticou publicamente a falta de consulta e pediu às suas 47 associações que não tomassem nenhuma decisão antes de receber análises detalhadas sobre o projeto.
O presidente da AFC, Salman bin Ibrahim Al-Khalifa, classificou a atuação unilateral da FIFA como inaceitável e afirmou que uma iniciativa dessa dimensão não terá sucesso sem o apoio das seis confederações continentais.
A manifestação asiática foi especialmente significativa porque a AFC vinha sendo uma das principais bases políticas de Infantino.
A Concacaf também declarou que conheceu o plano inicialmente pela imprensa e reclamou da falta de participação nas discussões. UEFA, AFC e Concacaf representam, juntas, uma parcela importante das federações filiadas e dos principais mercados comerciais do futebol mundial.
A Confederação Africana informou que analisará a proposta em uma reunião de seu comitê executivo. A entidade ainda não assumiu uma posição contrária e incentivou suas federações a estudarem o projeto.
Boicote colocaria FIFA diante de crise histórica
A UEFA não possui votos suficientes para impedir sozinha a aprovação do projeto. A Europa controla 55 das 211 associações filiadas, e cada federação possui direito a um voto.
O poder europeu está principalmente no valor esportivo e econômico de suas seleções, clubes, ligas e jogadores. A UEFA administra a Champions League, a Eurocopa e uma indústria que movimenta dezenas de bilhões de euros por temporada.
Sem a presença europeia, uma Copa do Mundo perderia parte considerável de seus principais jogadores, patrocinadores, mercados de televisão e torcedores.
O boicote também poderia atingir o Mundial de Clubes. Equipes como Real Madrid, Barcelona, Bayern de Munique, Liverpool, Manchester City, Paris Saint-Germain, Inter de Milão e outras potências ficariam fora do torneio.
A FIFA poderia aplicar sanções contra as federações que se recusassem a participar. Entretanto, punir todas as associações europeias criaria uma crise sem precedentes e aprofundaria a possibilidade de uma ruptura definitiva na administração do futebol mundial.
Relação entre Ceferin e Infantino chegou ao limite
A disputa ocorre em meio à deterioração da relação entre Aleksander Ceferin e Gianni Infantino.
O presidente da UEFA não compareceu à final da Copa do Mundo de 2026 após uma sequência de divergências sobre arbitragem, punições disciplinares e decisões operacionais tomadas pela FIFA durante a competição.
As entidades também se enfrentaram anteriormente por causa da tentativa de realizar a Copa do Mundo a cada dois anos, da expansão do Mundial de Clubes e do aumento no número de partidas do calendário internacional.
O novo plano comercial, porém, produziu a resposta mais forte. Pela primeira vez, as 55 federações europeias chegaram a um acordo para utilizar a retirada coletiva das competições como instrumento de pressão.
O boicote não está em vigor e ainda pode ser evitado. Infantino pode retirar a proposta, modificar o projeto ou aceitar uma negociação mais ampla com as confederações.
Caso a FIFA mantenha o plano e consiga aprová-lo, a UEFA promete responder com a maior ruptura da história recente do futebol mundial.